Discos (234)



Caractacus
(instrumental)

John Surman


Noite. Sempre a noite. A casa, outra vez. O gato. Janela e revês o silêncio da rua, das casas, da penumbra dos candeeiros. Apetece-te sair e dançar no meio da rua. Há o decoro, o bom-senso. A noite está fresca e dançar seria pouco para a celebrar. E, afinal, como dançar ao som do som, ao som do peso dos dias? 

(...)


Sentei-me à sombra de uma casa. Escrevi:

"Acabo de descer a Rua do Triunfo, que vai desaguar ao Largo do Eirô. Desci a caminhar, passo lento, observando cada porta, janela. Houve um tempo em que a desci várias vezes a correr, a desoras, noite dentro. Ou gritávamos ou tocávamos a todas as campainhas. O mundo era nosso com todas as suas promessas. Encontro, hoje, casas envelhecidas, com rostos envelhecidos. Janelas fechadas e "Já Era". Noutro tempo esta rua era uma das mais habitadas da vila, a par com a Rua de Santo António. Agora: é apenas um reflexo da vila no seu todo. Ruas e casas vazias. Rostos envelhecidos. Solidão vertical."

Enquanto escrevia estas linhas, há uma senhora a varrer o seu pedaço de rua. Parece querer contrariar-me. Parece dizer-me "eu ainda aqui estou".

Discos (233)



Composition 23 B
(instrumental)

Anthony Braxton


Há um silêncio que percorre a casa e tu, de auriculares, ouves aquilo que poderá ser uma noite feérica. O gato observa-te. Parece deslumbrado, mas sabes apenas que olha para ti na esperança de uma mão pelo dorso. Abres a janela e observas. Sentes uma leve brisa fresca que saúda. Algum conforto, finalmente, apesar da ventoinha ligada a teus pés. Na rua nenhum movimento. Nada. A noite é feérica. E estala-te nos ouvidos.

Livros (138)




Na peça de teatro Simplesmente Complicado, Bernhard dá-nos a conhecer as obsessões, traumas, angústias de um velho homem enclausurado na sua própria casa, que cria e recria à sua imagem e semelhança. O personagem debate-se com a doença, a velhice e a proximidade do fim. Bernhard coloca o dedo na ferida: a loucura está mais perto de nós do que aquilo que pensamos; rapidamente se pode apoderar do nosso corpo e mente. Simplesmente Complicado é uma alegoria à nossa frágil e perene condição humana.

Duas pequenas notas e não volto mais a estes assuntos (15)


1. A Liberdade é uma coisa muito bonita. Sou o primeiro a defender a minha. E, devido a isso, considero que o maior erro das chamadas (ou auto-intituladas?) forças progressistas seja o quererem, à força de Lei e de Decretos, defender a Liberdade dos outros. Contudo, quando o “progressismo” lhes bate à porta, aqui del-rei que me querem privar da minha liberdade. O maior erro, quanto a mim, é considerar que os outros não são capazes de se defender a si mesmos. Resumindo: que são uns incapazes, e que temos de ser nós, os “progressistas”, a defendê-la. O problema é que a minha liberdade não é a tua liberdade, mas não defendo que a minha liberdade termina onde a tua começa. Não. Considero que o meu “círculo” de liberdade se pode juntar ao teu e, dessa maneira, a minha liberdade e a tua ser aumentada. É claro que isso coloca vários problemas e várias questões, que deverão ser sempre (quanto a mim) resolvidas através do diálogo e do respeito mútuo, algo que sei ser muito difícil. Todavia, penso que não é à base de decretos que lá vamos. Não. Tentar regular a Liberdade é o mesmo que tentar regular o tracto intestinal: ou sai demasiada merda ou fica tudo entupido.


2. O famigerado caso de Ponte de Sor é um bom exemplo daquilo que a comunicação social não deve fazer. Dar tempo de antena aos filhos do Embaixador do Iraque é, no mínimo, questionável. É claro que existem as audiências, a publicidade e todas essas questões. Mas há uma investigação a decorrer e a defesa/acusação de alguém não deve ser feita nos canais de televisão, ou nos jornais. É claro que que não é a primeira vez que tal acontece. Temos tido nos últimos anos bastantes casos mediáticos que foram “julgados” na chamada praça pública. Tal facto poderá ter condicionado os tribunais. Talvez. Não sou jurista.

Ciril Jazbec



Greenland, 2013
© Ciril Jazbec

(...)



Por aqui tenho vindo a criar um hábito. Levanto-me e vou beber o primeiro café ao Nevão (onde tiram a melhor bica do país). Raro o dia em que não bebo dois. Raro. Depois rumo à Casa da Árvore, onde peço uma Pedras. Fresca. Abro o caderno de capas negras e boto letra. A maior parte daquilo que neles escrevo irá neles permanecer. Algumas coisa já t|em passado para outros registos. Mas o essencial, a maioria, nunca irá ver outro papel que não seja o dos cadernos.

Rudy Van Gelder (1924-2016)




Quando compro cds de jazz, procuro sempre aqueles que dizem Rudy Van Gelder Edition, pois sempre soube que estaria a comprar qualidade. Há o jazz antes e depois de Van Gelder. Hoje poderíamos ouvir o que ouvimos sem a produção de Van Gelder. Mas não seria a mesma coisa.

Um poema de Teresa M. G. Jardim


Eu vivo aqui


Não me deixes
na emboscada de uma sombra
não me concedas um amor
duradouro.
Continua a dar-me em cada manhã
a revelação das mãos, os peixes vermelhos
as ribeiras amansadas pelas buganvílias,
os rituais de preguiça
a urze vigilante.

Eu vivo aqui
no desenho mais alto da Ilha
temente dos muitos caminhos
por onde a água pode sumir-se.


em Jogos Radicais, Lisboa: Assírio & Alvim, 2010, p. 40.

Dave Sandford



© Dave Sandford

(...)


Cheguei há pouco a casa. Fui fazer a minha caminhada habitual pelas ruas da vila. Por mais que me tente encontrar nelas: não consigo. Admiro aqueles que estiveram fora e regressaram para aqui fazer vida. Admiro a sua coragem, resiliência. Desde 2001 que ando por aí. Ponte de Lima é o meu limite a norte; Silves a sul. Há quem me diga que "vida não me falta". Sorrio sempre ao ouvir isto. Entendo aquilo que me querem dizer, mas sorrio sempre. Sei que são muitos quilómetros de estrada por este país. São muitas as experiências. Cruzei-me com pessoas de todos os géneros e feitios. Vivi em sótãos, apartamentos, quartos, vivendas, anexos. Já passei muito frio para poupar na electricidade, numa tentativa inglória de não me sobrar mês. Nunca poupei na comida. Nem na poesia (apesar de não comprar todos os livros que me apetece comprar). E devido a tudo isto há quem me diga que "vida não me falta". No entanto, encontro mais vida numa pedra do ribeiro da vila; mais vida na nogueira e na sua sombra, que sempre me ensinaram a evitar; mais vida nos pastores que deixei de ver a cruzarem as ruas com os seus rebanhos (embora nunca lhes tenha cobiçado a vida que tinham); mais vida numa senhora que sei nunca ter visto o mar e que nunca sentiu falta de o ver. 

Discos (232)




Oh, I don't know how I think this way

New Order

Durante a adolescência há muita coisa escusada. Recordo perfeitamente a excessiva emotividade em relação a tudo. Nada doía mais do que a dor que eu sentia em relação ao facto de tu, algures, não saberes que eu existia. Não havia pior destino do que o meu destino: desterrado numa vila onde a chuva era uma constante e o nevoeiro um pastiche do nevoeiro dessas cidades que chegavam a mim através das bandas que ouvia. Horas e horas a olhar para o tecto. Horas e horas a imaginar-me longe. 

Livros (137)




Foram já três (3) as tentativas de ler tão influente livro. E apenas posso dizer uma coisa: é chato, enfadonho e intragável. Li com gosto (e em inglês) Dubliners e A Portrait of the Artist as a Young Man. Li-os na praia. Ficaram-me. Este também me ficou. Como algo atravessado.


Uma imagem para o dia



Discos (231)




La Boute Du Suffle
(instrumental)


A vila começa a meter-se com os nervos. As montanhas tiram-me a linha do horizonte. Há crueldade em tudo isto e talvez a banda-sonora que escolhi não seja a melhor para este dia quente-abafado. Fecham-se as janelas, pois o sol começa a dar deste lado da casa. Há uma mesa à espera do almoço: bacalhau desfiado com molho-da-avô. Bebo água. Hidrato-me para o resto do dia. Só não há hidratação suficiente contra o mundo e as suas camelices. Uma voz, dentro de mim, diz que me queixo muito. Tem razão.

(...)


Levantei-me cedo. Tratei de mim e do gato. Vesti-me e fui comprar peixe. Só havia carapau grande — hoje o pessoal madrugou? — nã! à quarta não peço muito peixe... o pessoal compra mais à quinta — lá paguei. Voltei a casa para o deixar. Malick: o gato espera-me à janela. Mia mal me vê. Deixei o peixe em cima da mesa da cozinha. No caminho de regresso à vila o silêncio do meu caminhar é a única coisa que se ouve. Os emigrantes começam a partir e a vila retoma a sua normalidade. Ainda ontem, enquanto corria, vi vários a prepararem o carro para a viagem. É assim: logo depois das festas em honra do Divino Senhor do Calvário. Muitos deles esperam pelo fim das festas e só depois regressam ao 75, ou ao 35, 65, 23. E a vila, aos poucos, começa outra vez a ficar vazia. Antes, quando era mais novo, os emigrantes chegavam com bazófia suficiente para deles ficarmos fartos. Vinham e andavam pelas ruas a dizer coisas como "lá na França não é assim, hã!" ou então " fiz Paris-aqui na autorrute sempre a rolar, hã, dois depósitos, hã". Vinham com os seus carros grandes para as suas vivendas. Depois, chegou o cavaquismo e o guterrismo e também alguns de nós passamos a ter carros grandes e vivendas. A bazófia deles diminuiu e alguns deixaram mesmo de vir. Os seus fatos de domingo começaram a ficar démodé ("oh la France, la mode, la elegance"). Alguns deixaram a França e regressaram. Continuavam a dizer "lá na França não é assim, hã", mas agora devido a outras razões: "os auserianos e os marroquãnes estão a tomar conta dos cartieres, hã". Só que os "bons anos" não duraram muito. Chegou Durão Barroso, Sócrates e Passos Coelho. O primeiro foi o primeiro a emigrar. O segundo foi o segundo a emigrar. O terceiro convidou muitos a emigrar. E muitos dos que tinham regressado seguiram o conselho do Senhor Primeiro-Ministro. Voltaram ao "cartiére". E passaram, novamente, a fazer as malas depois das festas em honra do Divino Senhor do Calvário.

Carm



Côdega do Larinho

(...)


O calor foi mais intenso hoje. Transpirei bastante. Mas, mesmo assim, arrisquei a corrida ao fim da tarde. Pesei-me pela manhã, em jejum como manda a regra, e estou a dois quilos de atingir o meu objectivo. Estou, agora, com 77kg.  Há muito que não consegui estar tanto tempo abaixo dos 80kg. Para muitos será fácil. Para mim: não. Houve um tempo em que pesei 98. Comia e bebia sem regras. Nada de exercício físico. Um dia, ao sentar-me num sofá, não conseguia encontrar posição. Até ao momento em que vi ser a barriga a causa. Era ela que me impedia de estar confortavelmente sentado. E eu gosto muito de estar confortavelmente sentado. Estive sem beber durante ano e meio. Aprendi a comer. Vim para os 75. Mas aguentei pouco tempo. Voltei para os 80 e o máximo foram os 85.

Lí por aí


Não é estranho que as pessoas sejam amigas, marquem presença, elogiem-se, não é estranho serem todos umas queridas e uns queridos, passarem momentos fantásticos. Estranho é que seja sempre genial, magnífico, fabuloso. Estranho é não haver ninguém que diga, enfim, foi mais ou menos, não foi assim tão genial, foi assim assim, foi uma seca.


(...)


Na aparelhagem o kamancheh de Kayhan Kalhor. Lá fora há uma leve e fresca brisa, que é interrompida pelo miar de Malick: o gato, que do peitoril da janela interroga o fim do dia com os olhos e os bigodes afiados. Não há nada de extraordinário em tudo isto. Mas talvez a montanha ali em frente explique o mundo, embora eu não consiga decifrar essa explicação. Há, sem dúvida, demasiada metafísica. Não serei eu a tentar compreendê-la.

Moises Saman



(...)


Escrevo antes de uma partida. Partida que preferia não fazer. Mas como chegar se não se partir? 

Meg Hewitt



Rollercoaster
© Meg Hewitt

(...)


Há alguns dias que andas a aperfeiçoar a corrida. Hoje conseguiste correr três quilómetros sem parares uma única vez. É claro que o ritmo não foi muito rápido. Foram trinta minutos de corrida permanente. Trinta minutos para fazeres três quilómetros. Nada mau. Depois alongaste e tomaste banho. Agora ouves Coltrane (Olé, 1961: John Coltrane [saxofone soprano e tenor], Freddie Hubbard [trompete], Eric Dolphy [saxofone alto e flauta], McCoy Tyner [piano] Reggie Workman e Art Davis [contrabaixo] e Elvin Jones [bateria]) enquanto Malick: o gato observa a rua do seu lugar preferido ao fim da tarde: o peitoril da janela. Isso antes de ver que usas o teclado do computador e vir ter contigo, interrompendo, dessa maneira, aquilo que poderia vir a ser um grande texto sobre a inevitabilidade do inevitável.