Um poema de Madalena de Castro Campos


Nua e crua

Sabia que olhavam para si
com a atenção suja
que se dedica aos vizinhos da frente.
Ao homem, à mulher, à filha mais velha,
à miséria de uns e à ingenuidade dos outros,
espreitando-lhes a intimidade pela fenda
da janela entreaberta.
Os passos entre a sala e a cozinha, entre o quarto
e a casa de banho, a televisão, o álcool, o tabaco,
o vai e vem inquieto no colchão,
os corpos nus, as discussões,
o sangue e a violência se se tivesse sorte.
Sabia-o, desejava-o,
mostraria o que houvesse para mostrar.
Talvez estivesse a ser usada, mas queria crer
que ela mesma usava aqueles que a liam.

Não conhecia, em literatura,
outro fim, outra estratégia ou outra moral.


retirado do blogue a gun in the garland

Depois de Bashô (4)


Análise sintáctica:
sujeito nulo —
poeta

Livros (145)



Gosto de antologias. E gosto particularmente desta, pois deu-me a conhecer poetas muito bons. Destaco três nomes: Ivone Chinita, J. H. Borges Martins e J. H. Santos Barros. Estes três nomes valem, por si só, esta antologia. A mesma foi organizada por outro poeta que muito aprecio: Emanuel Jorge Botelho.  

(...)


Levanto-me quase todos os dias às sete da manhã. Hoje não foi excepção. Quando olhei para o gato, para lhe dizer "bom dia", reparei nos seus olhos a pergunta "porra! já são horas?", o que me deixou perplexo, pois pensava que ele só sabia as horas das refeições. Depois lá fui até ao duche e a água quente ajudou o suficiente. Ele, o gato, continuava embrulhado no seu cobertor e nem mesmo o rasgar da embalagem da sua refeição o fez levantar-se. Continuaram os seus olhos a questionar-me: "porra! já são horas?".

Discos (241)




Like the elegies relate to days beyond recall
I lingered in many memories

Clan of Xymox


Só soube mais tarde que era demasiado novo para ter memórias. Diziam que só poderia falar de memórias depois dos cinquenta. Mas nunca me disseram que nome dar às imagens que me povoavam. Pensei, na altura, que também não podiam ser recordações. Ou poderiam? Nunca me esclareci com alguém mais esclarecido do que eu. Por isso comecei a utilizar “imagens” para designar todos aqueles dias. E que dias eram esses? Os mesmos de sempre. Dias envoltos em frio, nevoeiro. A cidade nada mais tinha para oferecer. Excepto a tua imagem pelas ruas.

(...)


Regressas à casa fechada. O frio é de mês. Ligas o aquecedor no quarto para quebrar o ar, mais uma manta sobre a cama. O gato também se queixa e procura o calor do teu corpo, sentando-se sobre as tuas pernas. Lá fora a chuva cai com a mesma força de sempre. Não se ouve nada nem ninguém no prédio. Tudo na mesma. Portanto.

Versões: Charles Bukowski


Partida rápida


nós
às vezes
deveríamos
lembrar
o ponto
mais alto
e
emblemático
das
nossas
vidas.

para mim
foi
muito novo
dormir
sem cheta
e sem
amigos
num banco
de jardim
numa
cidade
desconhecida

o que
não diz
muito
de todas
as outras
décadas
seguintes.



Charles Bukowski, «Starting fast», You get so alone at times that it just makes sense, New York: Ecco, 2002, p. 118.

Discos (240)




Symphony Nº 4 - "Los Angeles"
Arvo Pärt


À meia-noite o gato assustou-se com os foguetes que foram rebentando o silêncio da Vila. Fugiu para algum canto da casa e só reapareceu uma hora depois. O fogão aceso dá um certo conforto. Decidiste colocar mais um tronco para aguentar o resto da noite, embora os teus olhos peçam cama. Lá fora sabes a noite fria. O gato, agora,  ao teu colo. 

Ensino Recorrente



(...)


Ontem à meia-noite e meia soltaram fogo-de-artifício. Malick: o gato espantou-se do meu colo e nunca mais o vi. Tive de deixar todas as portas abertas. Reapareceu durante a noite e dormiu aos meus pés na minha cama. Hoje, durante o primeiro café do dia ― então ontem adiantaram o fim-de-ano? ― nã! foi o Tó-Zé Correia que fez vinte e cinco anos de casado! bodas de prata! ― eh pá! estou a ficar velho ― estamos todos. E lá pedi o segundo do dia.

A Poesia como Arte Insurgente - Lawrence Ferlinghetti



Lawrence Ferlinghetti
A Poesia como Arte Insurgente
tradução de Inês Dias
Relógio D'Água
2016

Um poema de Manoel de Barros


I. Matéria de Poesia


1.

Todas as coisas cujos valores podem ser
disputados no cuspe à distância
servem para poesia

O homem que possui um pente
uma árvore
serve para poesia

Terreno de 10 x 20, sujo de mato ― os que
nele gorjeiam: detritos semoventes, latas
servem para poesia

Um chevrolé gosmento
Coleção de besouros abstêmios
O bule de Braque sem boca
são bons para poesia

As coisas que não levam a nada
têm grande importância

Cada coisa ordinária é um elemento de estima

Cada coisa sem préstimo
tem seu lugar
na poesia ou na geral

O que se encontra em ninho joão-ferreira:
caco de vidro, garampos,
retratos de formatura,
servem demais para poesia

As coisas que pretendem, como
por exemplo: pedras que cheiram
água, homens
que atravessam períodos de árvore,
se prestam para poesia

Tudo aquilo que nos leva a coisa nenhuma
e que você não pode vender no mercado
com, por exemplo, o coração verde
dos pássaros,
serve para poesia

As coisas que os líquenes comem
          ―sapatos, adjetivos ―
têm muita importância para os pulmões
da poesia

Tudo aquilo que a nossa
civilização rejeita, pisa e mija em cima,
serve para poesia

Os loucos de água e estandarte
servem demais

O traste é ótimo
O pobre-diabo é colosso

Tudo que explique
   o alicate cremoso
   e o lodo das estrelas
servem demais da conta

Pessoas desimportantes
dão pra poesia
qualquer pessoa ou escada

Tudo que explique
   a lagartixa da esteira
   e a laminação de sabiás
é muito importante para a poesia

O que é bom para o lixo é bom para a poesia

Importante sobremaneira é a palavra repositório;
a palavra repositório eu conheço bem:
   tem muitas repercussões
como um algibe entupido de silêncio
   sabe a destroços

As coisas jogadas fora
têm grande importância
― como um homem jogado fora

Aliás é também objeto de poesia
saber qual o período médio
que um homem jogado fora
pode permanecer na terra sem nascerem
em sua boca as raízes da escória

As coisas sem importância são bens de poesia

Pois é assim que um chevrolé gosmento chega
ao poema, e as andorinhas de junho.



em Poesia Completa, Lisboa: Relógio D’Água, 2016, pp. 137-139.

Discos (239)



(Fun) I'm gonna get stoned and run around

Iggy Pop


As noites eram quase todas iguais. Pelo meio, às vezes, havia a pausa necessária, ou obrigatória. O frio das ruas convidava à corrida, ao assombro. E nós corríamos assombrados. Assombrados e jovens: perfeita união.

(...)


Hope is what I'm asking for canta Peter Murphy aqui neste quarto-escritório. O dia não esteve tão frio como ontem, mas na rua continuam a conhecer-me e a perguntar "o que é feito de ti?". Apetece-me responder com a voz de Peter Murphy. Só que a maior parte não sabe inglês.

Um poema de João Vasco Coelho


Caminho


Na lousã, os miúdos vão a pé para a escola.

Voam, de ramo em ramo, até acabar a árvore.

Vão depois ao continente, pôr creme e perfume
armani, ver as prateleiras de sumo e vinho de mesa.

Pelo caminho, aprendem a tradição particular da
carência, do sentimento, da decepção.


em Zero-a-Zero, Coimbra: do lado esquerdo, 2016, p. 39.

Feliz Natal



Rage Against the Machine
The Battle of Britain
Live at Finsbury Park
2010

Um dia, na minha adolescência, lembrei-me de escrever aos Rage Against the Machine. Enviaram-me, durante três anos, singles em vinil por altura do meu aniversário. Nunca irei esquecer isso. E com os singles vinha propaganda zapatista, do movimento de Chiapas, no México. Propaganda que eu fotocopiava e distribuía por mãos amigas.

Em 2010 deram este concerto gratuito, como agradecimento: Killing in the name tinha sido número um no Reino Unido no Natal anterior (o desafio tinha sido lançado por um casal inglês). Sempre que vejo e ouço este concerto fico em pele de galinha.


Frio...


Frio
nas mãos

mãos
nos bolsos

e neles
também

restos
de nada

(...)




Não sei o que me é mais deprimente: se uma Vila deserta em silêncio, ou se uma Vila deserta, mas com música de Natal muito má e uma iluminação de Natal muito pobre. Valha-me um dos ribeiros da Vila.

Nota de leitura (8)


É só para dizer

Que comi
as ameixas
que estavam
no frigorífico

e que tu
provavelmente
guardavas
para o pequeno-almoço

Perdoa-me
estavam deliciosas
tão doces
e tão frescas


William Carlos Williams
Selected Poems
New Directions, 1985.
(versão minha)


Talvez seja um dos mais conhecidos poemas de William Carlos Williams. "Nele não há nada de poético", dirão as almas mais ofuscadas pela luz do sublime. No entanto, tudo nele é poesia: desde a situação à musicalidade (que poderá estar perdida, admito, nesta versão apresentada). E há, ainda, a concisão das palavras.
     Carlos Williams percorreu um caminho longe dos labirintos metafóricos. Procura antes a economia das palavras, mas também o seu rigor, utilizando as palavras exactas e não as mais próximas daquilo que se quer dizer (a utilização da palavra-bibelot está fora de questão), a leveza e a proximidade ao dia-a-dia. Uma poesia imagista, acima de tudo. E na sua verdadeira essência.

Um poema de Luís Pedro Almeida


O meu ser e o tempo

Nunca recomeço.
Continuo sempre.

E quando oiço o rádio dizer
«menos uma hora nos Açores»
apetece-me estar lá.


em Introdução à Anatomia das Sereias e Outros Poemas, Guarda: Aquilo Teatro, 2002, p. 44.

(...)


Cada vez mais esta vila é menos a minha vila. Começo a sentir que apenas aqui fui criado, mas que depois me criei por aí, a saltar de terra em terra, pela estrada fora. Fui tomar o café e aproveitei o balanço e bebi uma aguardente velha num copo de shot. Aqui damos o nome de martelinho. E enquanto bebia o café e sentia o calor da aguardente a percorrer o meu corpo, li uma notícia que, sinceramente, não me deixou admirado. Parece que foi Mozart quem mais CD vendeu em 2016, ao contrário daquilo que muitos poderiam prever. Passados 225 anos sobre a sua morte, Mozart continua a ser uma estrela pop.

Lí por aí




Uma das primeiras generalizações proposta pelo autor é a de três orientações para a literatura portuguesa produzida depois da Revolução: a que olha para trás (focada na História), a que olha para a distância (focada em espaços geográficos exteriores ao território nacional), a que olha para dentro (focada no Eu próprio). A pergunta que se impõe é: não foi sempre assim? O que há de novo nestas três, que poderiam ser quatro ou cinco ou seis, orientações? Nada.






Nota: vou na página setenta. É a primeira vez que leio um ensaio de João Barrento. Não estou, sinceramente, convencido. Mais do mesmo. Os mesmo nomes de sempre. As mesmas ideias de sempre. Nada de novo. Mas, só vou na página setenta.