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Chego à escola. Dois carros da polícia estacionados. Os agentes andam a rondar pelo pátio. Observam todos os cantos. Procuram alguém. Começa a ser rotina. 

Um poema de Fábio Neves Marcelino


Diante do crepúsculo
de lábios doces
encerro as cortinas.

Já amei a música
na língua dos poetas
que hoje se assemelha
a um rumor.

Desço os degraus,
nomeio os infernos
e o medo torna-se branco.


em Telhados de Vidro, nº. 22, Novembro 2017, p. 55.

Discos (272)


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You're so pretty the way you are. 
And you had no reason, 
To be so insolent to me. 

The Cranberries



A camisa de flanela apontava para outras sonoridades. Mas a verdade é que todos nós, secretamente, tínhamos a cassete. O cd tinha chegado de Lisboa pela mão do França. Tinha ido à Carbono comprá-lo de propósito. Depois andou de mão-em-mão, a ser gravado para cassetes. Ouvi a minha várias e muitas vezes. Ainda hoje o considero um grande álbum. Tenho de comprar o cd. 

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Estava na aula quando senti a terra tremer. A secretária vibrou um pouco. Os alunos não se aperceberam e eu nada disse, pois não quis instalar o "pânico" (nestas idades pânico é sinónimo de histeria). A aula correu dentro da normalidade possível. Só mais tarde soube: 4,9 na escala de Richter. 

Uma imagem para o dia


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No pátio procuram o sol. "Está demasiado frio nas salas", dizem. Tudo serve para faltar às aulas. O frio, quanto a mim, é a melhor justificação. 

Livros (155)


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Não foi uma leitura fácil e, sinceramente, não sei se compreendi na totalidade aquilo que Kierkegaard nele diz. Não me é fácil ler filosofia, apesar do interesse que tenho por ela. O filósofo dinamarquês parte de Sócrates: em que medida pode a virtude ser aprendida, procurando dessa maneira elaborar a seguinte questão: em que medida pode a verdade ser aprendida, pois considera o seguinte: se a verdade pode ser aprendida, isso significa que o não é, logo é buscada. Enquanto o pathos de Sócrates se baseia na recordação, o pathos de Kierkegaard baseia-se no instante (com natureza própria, breve, temporal, fugaz, transcorrido, decisivo, cheio de eterno, sendo assim a plenitude do tempo). Deus, para Kierkegaard, não é um nome, mas sim um conceito, sendo que a sua vinda rompe com a relação socrática: «porque entre homem e homem é certo que a relação socrática é a mais elevada, a mais verdadeira. Assim, se o deus não viesse ele mesmo, tudo permaneceria em termos socráticos (...)» (p. 109).
     Kierkegaard introduz o conceito de Fé. Para ele esta não é uma forma de conhecimento, pois o seu objecto não são os ensinamentos, mas sim Deus. Assim, a Fé tem de estar constantemente centrada em Deus. Considera, também, que a Fé é um acto de liberdade e uma expressão da vontade: «A conclusão da fé não é uma conclusão, mas sim uma decisão, e é por isso que a dúvida está excluída:» (p. 144). Todavia, a Fé assemelha-se, em certa medida, àquilo preconizado pelo cepticismo grego, onde a dúvida não surgia por força do conhecimento, mas sim por força da vontade.

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Na sala de professores encontro um grupo de estagiários. Lembro-me quando assim era comigo. Têm ar assustado e envergonhado. Digo-lhes "bom dia". Ficam ainda mais assustados e envergonhados. 

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Este fim-de-semana irei até Manteigas. Sei que me espera frio, chuva e, talvez, alguma neve. Mas entre cá e lá: uma viagem. Ou melhor: uma ida, pois há muito que não considero estas deslocações viagens.

Diga 33 - poesia no teatro





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No outro dia um aluno disse-me — o s'tôr é um merdas — e não hesitou um segundo. Disse-o com à-vontade, sem pensar nas consequências. Fiquei em silêncio a olhar para ele. Depois dei-lhe ordem de saída da sala de aula. Recusou-se. Levantei-me e abri-lhe a porta. Continuou sentado. Repetiu — o s'tôr é um merdas — e disse-o, agora, olhos nos olhos. Eu: permaneci em pé, a segurar a porta. Levantou-se, deu um forte pontapé na cadeira e na secretária. Saiu. E eu tentei continuar a aula.

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Sono. O despertador. Acender a luz. Abrir o estore. Noite ainda. De repente: chuva. Muita e forte. Ligar a televisão para as primeiras notícias. Preparar o pequeno-almoço. Pouca vontade. Fazer tudo em piloto-automático. A torrada não saber a torrada. A nada. Beber a bebida de cereais com vinte por cento de café. Depois: o café-café. Tomar banho. Vestir. Tudo em piloto-automático. As horas. Pensar no trânsito, qual o melhor trajecto para chegar a tempo. Demasiado sono para pensar. Sair. Chuva. Entrar no carro. Arrancar. O carro pára. Vai abaixo. Sono, talvez. Mas lá arranca. Seguir. Chegar. Sono.

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No outro dia comprei, finalmente, a trilogia de Berlim, de Bowie. Há muito que a tinha perdida algures numa TDK SA-X. Numa caixa promocional vinham "Heroes", Low e Lodger. E incluía, também, Stage, um álbum ao vivo. Este último é muito, muito bom. David Bowie sabia como segurar o público. Abre com Warszawa, essa fantástica composição da dupla Eno/Bowie, e que dá seguimento a "Heroes". A partir daí é um continuar de guitarras. O som é límpido. A produção é excelente. Fiquei bastante surpreendido.

Reverso (24)




Robert Palmer escreveu uma música muito boa e Todd Terje fez uma versão ainda melhor. Claro que a voz de Brian Ferry ajuda. E bastante. Podemos, em certa medida, considerar o original de Palmer uma música "datada", pois facilmente identificamos a década em que foi composta. E onde o original é mais pop, a versão é mais íntima. O calor da voz de Brian Ferry, a sua languidez, conferem à versão de Todd Terje um toque de cabaret decadente.

Vale a Pena, Encontro de Autores Regionais


Em pleno século XXI, o que define um autor regional? Será aquele que só escreve sobre a sua região? Será aquele que só escreve sobre o ribeiro da vila? Será Aquilino Ribeiro um autor regional? Será Ana Teresa Pereira uma autora regional da Madeira? Será António Lobo Antunes um autor regional da região de Lisboa? E Gonçalo M. Tavares? O que é, afinal, um autor regional?

Isto tudo para chegar a este ponto: recebi hoje um convite da Câmara Municipal de Tarouca para um encontro de Autores Regionais: “Vale a Pena, Encontro de Autores Regionais”. O convite foi feito pela Secretária do evento, que está encarreguada, pelo Presidente da Câmara, de o fazer. O grande objectivo do encontro é, e cito, «dar lugar, vez e voz aos Autores Regionais». Respondi ao convite dizendo que existe, de certeza, um engano, pois não sou natural da região de Tarouca (e mesmo que fosse: isso faria de mim um autor regional?). A resposta foi pronta, e cito, «Informo que o Encontro se destina aos Autores Regionais de todo o País.». E agora é que fiquei realmente confundido. Então é um encontro de Autores Regionais de todo o País? Assim sendo, não serão eles autores nacionais oriundos de diferentes regiões? Ou continuam apenas a ser Autores Regionais?

Este género de iniciativas irritam-me solenemente. Uma coisa, quanto a mim, é organizar um encontro de escritores naturais de uma determinada região. Isso é algo completamente diferente. Agora aquilo que a Câmara Municipal de Tarouca quer promover é algo sem pés nem cabeça, uma espécie de jogos florais, uma espécie de milho aos pombos (“autores regionais”) que coitadinhos não conseguem ter lugar, vez e voz. No entanto, no convite é dito: «Este evento inédito tem o objetivo de reunir os Autores que vão editando as suas obras, guiados por sentimentos profundos de ligação à literatura e à terra.». Desculpe? Poderia repetir?

Como chegou a Câmara Municipal de Tarouca até mim? A resposta: «V. Exª. foi-nos identificado e indicado pelos serviços da Cultura da Câmara Municipal do S/ concelho, com intervenção direta do Presidente».


E é isto.

Discos (271)




Xmas Steps
(instrumental)

Mogwai

Sais de casa. Há frio e chuva. Vais até ao barracão buscar lenha para aquecer o dia. No quintal algumas árvores de fruto. Silêncio menos os teus passos. O cheiro a madeira quando abres a porta, teias de aranha, uma leve luz que entra pelas duas pequenas janelas. Do monte à tua frente escolhes os pequenos troncos que queres levar. Enches um saco. Voltas para casa. Fazes o mesmo mais duas vezes. No fim: fechas o barracão à chave, regressas a casa. Escreves estas linhas antes de lavar as mãos. 

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Malick, o gato, tem a sua rotina matinal. Gosta de se levantar cedo e comer de imediato, caso contrário é uma miadeira que ninguém o aguenta. Depois gosta de ir até à varanda, só que nem sempre o tempo ajuda. De seguida são os mimos. Anda por toda a casa a miar. Mia, mia e mia até que vá sentar-me no sofá. É então que salta para o colo, amassa a barriga, ronrona e ronrona. Aninha-se por breves instantes. No final, quando está satisfeito e verifica que o mundo não acabou e continua no seu eixo, salta, procura outro lugar. Aninha-se. E espera que o dia continue.

Um poema de Paulo Navarro Costa


L'échorché de Cécile

dos insectos retidos no resto do rosto:
um troféu,
sentia ondas correntes pulsáteis de calor a varrerem
cutícula
por dentro como um sismo

a pele estalava

no teu lábio

um sol de herpes começa a arvorar
e o teu corpo é luciferina
em princípio de escamação,
saturações cromáticas
o crepitar dessa voz torrada num ardor que não se
apaga

todas as estações ardes um pulmão
terreno infértil mesmo para a centopeia dos músculos,
nesse solo e cérvix por explorar
acenderia a lua de nacre
na capela ensanguentada

mas não posso tocar
virgem
dos queimados
por isso teço esta gaze em forma de poema

ao cobrires a sementeira vazia recorda-te
que na verdade
somos todos assim,
homens,
não te iludas por tostão e meio de verbo

               ESTE É O TEMPO DOS CANALHAS.


em A Insurreição dos Corpos, Lisboa: &etc, 2008, pp. 10-11.

Uma imagem para o dia



Ernesto Sampaio

     
     O homem tem duas maneiras de se compreender: a partir do mundo das coisas, com base no que pode fazer; ou a partir do que pode ser, com base em si próprio. Digamos que a primeira maneira é o vector da existência inautêntica e que a segunda é a bússola da autêntica existência.

em O Sal Vertido, Lisboa: Hiena Editora, 1988, p. 27. 

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Frio. O aquecimento central ligado. O gato, sempre o gato, enrolado na sua manta. Focinho tapado. Frio. Leio Ernesto Sampaio. Autor que me é querido. Feriados Nacionais e Ideias Lebres são dois livros que me acompanham. Agora: O Sal Vertido. Gosto de Ernesto Sampaio. Gosto do frio. Mas gosto, ainda mais, do aquecimento central ligado, a chuva lá fora.

Konstandinos Kavafis | Konstantinos Kaváfis


À entrada do café

A minha atenção por algo que me disseram ao meu lado
dirigiu-se para a entrada do café.
E vi o corpo belo que parecia
ter sido feito pela extrema experiência de Eros —
modelou os seus membros simétricos com alegria;
elevou a sua estatura esculpida;
modelou com emoção o rosto
e deixou pelo toque das suas mãos
uma sensação na testa, nos olhos e nos lábios.

Konstandinos Kavafis
tradução de Joaquim Manuel Magalhães e Nikos Pratsinis


À entrada no café

A minha atenção, algo que a meu lado alguém disse
voltou-a para a entrada no café.
Vi então aquele formoso corpo que parecia
tê-lo criado Eros do fundo da sua experiência,
modelando com deleite a simetria dos seus membros;
erguendo, escultural, seu alto talhe;
modelando com ternura o rosto
e deixando-lhe, só com o toque das mãos,
uma emoção na fronte, nos olhos e nos lábios.

Konstantinos Kaváfis
tradução de Manuel Resende


Uma imagem para o dia



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Na ponta do prédio ali em frente: o sol. Estou nesta sala penumbra com grades nas janelas. Ouvem-se crianças. Não falam. Gritam. Praguejam. Uivos nada devedores de Ginsberg. A tempestade já passou, mas parece que ainda estou no seu olho. Dizem que nele há uma calma. Só aparente. É o que sinto a esta hora: uma calma-aparente.