Discos (268)




Mrs. Parker of K.C. (Bird's Mother)
(intrumental)


O despertador tocou. Subiste o estore do quarto e a luz semicerrou os teus olhos. A cidade parece estar no mesmo lugar. Colocas a água a ferver, o pão na torradeira. O gato está confortavelmente deitado no sofá. Abre os olhos e volta a fechá-los. O trompete de Little faz-te bater o pé, enquanto lês as notas de rodapé nas notícias. Nada de novo no mundo. Novo-novo só mesmo a maneira como bebes o café todos os dias, em pé frente à janela. Novo-novo só mesmo a luz do sol reflectida nas janelas do prédio em frente. Little dá a vez a Dolphy. Novo-novo.

(...)


Hoje, pela manhã, houve rusga no Bairro. Deu na rádio e tudo. Talvez apareça nas notícias à hora do almoço.

Um poema de Ian Hamilton


Vizinhos

Das janelas que dão para a baía
No ruinoso hotel do outro lado da estrada
Misteriosos hóspedes por uma noite
Assomam às varandas
Para absorver a frescura do ar.

Deixamo-los espiar
As nossas plácidas vidas.
Eles deixam-nos pensar que será feito deles.


em Cinquenta Poemas, tradução de Nuno Vidal, Lisboa: Livros Cotovia, 1995, p. 67

A propósito de Os Cem Melhores Poemas Portugueses dos Últimos Cem Anos


Em primeiro lugar: não comprei. Folheei e decidi não o fazer.
Em segundo lugar: não vou criticar a escolha dos poetas, nem dos poemas, pois acredito que o grande valor duma antologia está nos nomes que não contém, ou nos poemas que também não contém, desafiando assim outros a fazer melhor, ou diferente.
Mas, permitam-me os desabafos:
1º Ruy Cinatti é Ruy Cinatti e não "Rui Cinatti", principalmente quando vem escrito "Rui", na página onde está incluído o poema, e "Ruy" numa espécie de índice bibliográgico;
2º o poema de Miguel-Manso não está incluído em Bonsoir, Madame, livro que reúne a obra completa de Manuel de Castro, publicado pela Alexandria/Língua Morta e não somente pela Língua Morta, como nos leva a crer o "índice bibliográfico";
3º tenho a certeza que o poema de Raquel Nobre Guerra vem em Senhor Roubado. O poema não tem título, apesar de no "índice bibliográfico" vir indicado o poema "Escuro", publicado em Groto Sato.
Estes são apenas três desabafos que tenho depois de folhear o livro com pouca atenção. Não vou sequer falar do grafismo, que deixa muito a desejar, nomeadamente quando se quebram poemas (que passam para a página seguinte) e não se colocam as restantes estrofes destacas ao nível do título do poema (não sei se me estou a explicar bem), podendo dar a ideia, para os mais distraídos, de que se tratam de dois poemas autónomos. Revisão: considero-a inexistente.

(...)


Cheguei a casa cansado e farto. Costumo chegar muitas vezes cansado. Mas são poucas as vezes em que chego farto. O cansaço é-me natural; os estar farto de algo: não. Só que ontem cheguei farto a casa. O gato estava deitado no lugar de sempre. Miou quando me viu. Abri uma mini e preparei o almoço. Pensei na razão de estar farto. E nada conclui. Talvez o estar farto comece, também, a ser em mim um "é-me".

Cabriz




Encruzado | Malvasia-Fina | Bical | Cerceal-Branco

(...)


Findado o almoço de Sábado, lavei a louça. Olhei para as minhas mãos. Estão secas, ásperas. Precisam de creme. O vinho tinto que comprei e bebi era uma bodega: "Romeira". Dizem que é vinho alentejano. Só que é feito em Rio Maior. Só vi isso quando cheguei a casa. Não aconselho. Ficou mais de metade na garrafa.
O sol já está para lá da Fraga da Cruz. Ligo o aquecedor a gás e começo a ler o primeiro volume do diário de Virginia Woolf. Daqui a nada talvez passe pelas brasas. E é mais uma tarde passada. Só que já vou na página 47 e penso o que já antes pensei ao ler diários de outros autores: "mais interessante do que os romances".
Entretanto, provei a jeropiga deste ano do meu Tio Zé. E, como sempre, não falha: está boa; muito boa. Nunca bebi jeropiga feita por ele que fosse má. E não é por ser meu Tio. Não. Ele sabe o que faz. E faz bem.

Discos (267)



The Fifth of Beethoven
(instrumental)

Ornette Coleman


Espera-me, sobre a mesa da sala, o primeiro volume dos diários de Virginia Woolf. Cheguei há pouco da vila, que permanece tal e qual: vazia e velha. Não encontrei um único amigo com quem conversar. Bebi o café em silêncio e saí. No saco das compras trouxe azeite kosher (produzido por um amigo meu), pão-de-centeio, uma garrafa de vinho tinto, iogurtes. A minha Mãe prepara o almoço: rabo-de-boi estufado. O sol brilha em todo o seu esplendor. Apesar de ser São Martinho: apetece-me chuva.  

(...)


Hoje as aulas são num primeiro andar. Tenho de ter os estores para baixo. Assim, evito que os alunos se distraiam com o pátio. Mas lá fora há alguém que decidiu trazer uma daquelas mega-colunas da moda e há música "a bombar" (como eles dizem). As cabeças (cá dentro) abanam ao som da música que se ouve (lá fora). Os pés começam a marcar o ritmo.

Vinha das Mouras



Syrah | Aragonez | Alicante Bouschet | Trincadeira.

(...)


Uma das salas onde dou aulas é no rés-do-chão, pavilhão C. Os estores estão todos destruídos, rebentados. Como não há dinheiro para os mandar arranjar, a solução é colar uma película translúcida mas que não deixa os alunos (que andam do lado de fora) ver o interior da sala. Mas isso não os impede de bater nas janelas, acabar de destruir os estores, chamarem-me "cabrão", "filho-da-puta", ou, então, "vai-te foder". Não há Auxiliares de Acção Educativa suficientes para vigiar o pátio, ou para controlar o barulho ensurdecedor dentro do pavilhão. E, depois, ainda tenho de controlar a turma que está a ter aula comigo. E dar aula.

Espumante Herdade do Esporão (Bruto)



Antão Vaz | Arinto

Bill Bryson


No início de 1993, o estado de Maryland descobriu que tinha um problema quando alguém reparou que o lema estadual Fatti maschii, parole femine (feitos masculinos, palavras femininas) não era somente estranho e imbecil, mas também sexista. A dificuldade era que o lema estava impresso nos documentos oficiais do estado e gravado em todos os seus monumentos e edifícios públicos, e já era conhecido há muito tempo. Depois de muito debater, os legisladores estaduais chegaram a um engenhoso compromisso. Em vez de alterar o lema, decidiram alterar a tradução. Agora, quando um cidadão de Maryland vê Fatti maschii, parole femine, pensa que isso significa “Grandes feitos, gentis palavras”. E todos foram dormir de consciência tranquila.


em Made in America, tradução de Daniela Carvalhal Garcia, Lisboa: Quetzal , 2006, p. 523.

Henrique Manuel Bento Fialho


Oração

Senhor, perdoa-me as faltas, andar
aos encontrões distraído com fainas
dispendiosas, sem sossego para preces
nem inquietações, bolsos cheios de asma,

uma descrença no mundo e nos homens
quase tão densa como a que se me forma
na garganta por ti. Queria ver-te além
das horas, trajado de clareza, na cegueira

de um amor inconsútil. Cada vez mais só,
peço-te que acolhas no meu silêncio
os vales onde o sangue corre puro e limpo.
Que enchas de coragem os meus inimigos.


retirado do blogue do autor

Sobreiro Premium



Castelão | Aragonez | Cabernet Sauvignon

(...)


Não sei por que razão insisto na leitura de  Kierkegaard. Não me sinto mais inteligente ao fazê-lo, muito pelo contrário. Kierkegaard faz-me sentir o oposto. Também não o faço para impressionar alguém. Considero, até, que todos aqueles que se deixam impressionar pelas coisas da Filosofia nunca viram um borrego nascer (isso sim: algo verdadeiramente impressionante). Lei-o, de certeza, por masoquismo. Sim. Só pode ser isso.

(...)


Foi sol de pouca dura: a chuva. Mas está mais frio. O gato já coloca a pata sobre o nariz e procura o calor da manta. Já não se afasta do sol no chão da sala, sobre o tapete. Percebe que o frio veio, talvez, para ficar. Sabe qu'o aroma das castanhas assadas e o sabor da jeropiga se aproximam. E encolhe-se sobre o sofá. Enrola-se um pouco mais. 

(...)


A chuva regressou finalmente. O suficiente para o trânsito ser um pouco mais caótico. Por vezes penso que o trânsito de Lisboa é o caos mais organizado que conheço. É claro que nunca fui a Madrid, ou a Roma (disseram-me que lá, em Roma, o trânsito é impossível). E no caminho até à escola encontrei vários acidentes, e, de repente, pensei: "E se Kierkegaard tivesse lido Nietzsche?".

Guarda Rios Signature




Syrah | Cabernet Sauvignon | Merlot | Touriga Nacional

Um poema de Alda Merini


12


Para ti escrevi árduas sentenças,
para ti escrevi todo o meu declínio;
aniquilo-me agora, e nada pode salvar
a minha voz devota; apenas um canto
pode transparecer sob a minha pele
e é um canto de amor que amadurece
esta minha eternidade sem limites.


em A Terra Santa, tradução e prefácio de Clara Rowland, Lisboa: Livros Cotovia, 2004, p. 43.

Kierkegaard


(...) Em sentido geral, querer provar algo que existe é uma tarefa difícil (...). Assim, nunca concluo sobre a existência, antes concluo a partir da existência, quer me mova no mundo daquilo que é sensivelmente palpável, quer no mundo do pensamento. Não provo, pois, que existe uma pedra, mas sim que algo que existe é uma pedra; (...) Quer se queira chamar à existência um accessorium ou o eterno prius, ela não pode nunca ser provada.


em Migalhas Filosóficas, tradução, introdução e notas de José Miranda Justo, Lisboa: Relógio D'Água, 2012, pp. 89-90.

(...)


A leitura do terrível dinamarquês não está a ser fácil. Às vezes perco-me no meio da sua ironia. O ponto de partida é Sócrates. Duas coisas já entendi: o pathos socrático é a recordação; o pathos kierkegaardiano é o instante. E, depois, fico a pensar: "porque estou a ler isto? para que serve? para que me serve?". E as respostas ficam por dar. Encontrar.

Guarda Rios Signature




Antão Vaz | Arinto | Viognier | Semillon

(...)


Hoje à porta da escola dois carros da Polícia. Confusão. Grupos rivais e essas coisas triviais. Digo: banais. Saí por entre os pingos da chuva. 

Um poema de João Alexandre Lopes



Palácio de Cristal

Adio a ida para casa:
a cozinha desleixada, o almoço
sem piada, os livros sem
gente dentro, o chilrear
dos periquitos a moer-me os nervos.

Daqui, a partir daqui,
é sempre a descer.



em Hora Zero, s/l: Medula, 2017, p. 17.