Luiza Neto Jorge


Epitáfio


Querida vida.
Pobre pó.
Tão pó a pó.
Após, a pó.


em Poesia, Lisboa: Assírio & Alvim, 2ª edição, 2001, p. 288.

Uma imagem para o dia



(...)


Um dos privilégios da tua profissão é a interrupção lectiva por altura da Páscoa. Sabes daqueles que a não têm. Agora, que a interrupção terminou, retomas a normalidade, a rotina diária do levantar cedo e cedo erguer dá saúde e faz crescer a caminho do trabalho.

Versões: Tadeusz Różewicz


Os meus lábios


O dia está a terminar
Termina com o jantar
lavar os dentes
um beijo
e deixar tudo arrumado

foi um dia
entre muitos outros preciosos dias
que nunca se repetem

O que me aconteceu

Passou e andou
entre a manhã e a noite
como o dia anterior

Oh meu dia
meu mais que tudo
o que fiz
o que fiz

Talvez deva
sair pela manhã
regressar à tarde
repetir alguns gestos
pôr as coisas em dia

Oh meu dia
o mais belo diamante do mundo
torre de marfim
baleia azul
lágrima nos meus olhos

Oh os meus obscuros pensamentos
quando estou em pé com as mãos nos bolsos
e vejo através de colunas cinzentas de chuva
o plátano ficar dourado

Os meus lábios
que falaram
a verdade mentiram
mecanicamente afirmaram
negaram mendigaram
gritaram sussurraram
choraram e riram

Os meus lábios
formando entre
eles inúmeras
palavras ditas


Tadeusz Różewicz, «My Lips», Selected Poems, traduzido do Polaco por Adam Czerniawski, London: Seven Books, 1994, pp. 39 e 41.

Versões: Tadeusz Różewicz


O Sobrevivente


Vinte e quatro anos
levado para o matadouro
sobrevivi.

Estes são sinónimos vazios:
homem e animal
amor e ódio
amigos e inimigos
escuridão e luz.

A maneira de matar homens e animais é a mesma
vi-a:
camiões cheios de homens despedaçados
que não poderão ser salvos.

Ideias são apenas palavras:
virtude e crime
verdade e mentira
beleza e fealdade
coragem e cobardia.

Virtude e crime têm o mesmo peso
vi-o:
num homem que era ao mesmo tempo
virtuoso e criminoso.

Procuro um professor e um mestre
que possa devolver-me a visão audição e fala
que possa nomear novamente objectos e ideias
que possa separar a escuridão da luz.

Vinte e quatro anos
levado para o matadouro
sobrevivi.



Tadeusz Różewicz, «The Survivor», Selected Poems, traduzido do Polaco por Adam Czerniawski, London: Seven Books, 1994, p. 7.

Versões: Vladimír Holan


Ela perguntou-te


Uma rapariga perguntou-te: O que é poesia?
Apeteceu-te dizer: Tu és, ah sim, também és,
e por isso com medo e espanto,
que são prova do prodígio,
tenho ciúmes da tua beleza pronta a colher,
e como não consigo beijar-te ou contigo dormir,
e como aquele que nada tem para dar
deve cantar…

Só que não perguntaste, ficaste em silêncio
e não ouviste a canção.



Vladimir Holan, «She Asked You», Selected Poems, traduzido do Checo por Jarmila e Ian Milner, London: Penguin Books, 1971, p. 34.

Versões: Abbas Kiarostami


A balança diz
que estou leve
como uma pena.
Que algazarra
à minha volta!


*


A minha sombra acompanha-me
agora à minha frente
agora ao meu lado
agora atrás de mim.
Que alívio
estes dias cobertos de nuvens!



Abbas Kiarostami, A Wolf Lying in Wait – Selected Poems, traduzido do Persa por Karim Emami e Michael Beard, Tehran: Sokhan Publishers, 2005, p. 30.

Versões: Abbas Kiarostami


Ao primeiro vento de Outono
um bando de folhas
procura refúgio no meu quarto.


*


Sonho
que estou sepultado
debaixo das folhas.
O meu corpo começa a germinar.



Abbas Kiarostami, A Wolf Lying in Wait – Selected Poems, traduzido do Persa por Karim Emami e Michael Beard, Tehran: Sokhan Publishers, 2005, p. 25.

Versões: Vladimír Holan


Ao Inimigo


Estou farto da tua maldade e se ainda não me matei
é porque a minha vida não é só minha
e ainda amo alguém porque me amo também.
Podes rir, mas só uma águia ataca outra águia
e apenas Aquiles pode chorar Heitor ferido.
Ser não é fácil… Ser poeta e ser homem
é como ser madeira sem árvores
e ver… O cientista observa.
A ciência apenas vasculha a verdade:
ao milímetro, sem imaginação! E para quê?
Simplesmente porque, e já o disse antes:
a ciência está na probabilidade, a poesia na parábola,
o grande hemisfério mental
rejeita um grande poema ao pedir açúcar…
Um galo encolhe à chuva, mas isso é outra estória,
é noite, dizes: amadurecida sexualmente,
a mulher tem uns seios tão firmes
que facilmente se partiriam
um par de copos de brandy entre eles, mas isso é outra estória.
E imagina um farol num barco,
um farol flutuante: mas isso é mesmo uma estória diferente.
E o teu desenvolvimento de célula humana
a ovas e líquenes é mesmo uma estória diferente.
Aquela nuvem vai vomitar mas tu nem consegues arrotar,
és incapaz de ser, e nem
as escamas da cobra te conseguem sufocar,
aquilo que Deus concebeu, Ele quer sentir por inteiro,
as crianças e os bêbados sabem o que é,
mas não são mal-educados o suficiente para perguntar
por que razão um espelho se enevoa quando uma mulher
menstruada nele se olha,
e por amor à vida os poetas não perguntam
por que razão o vinho turva nos barris
quando ela por eles passa…

E estou farto do teu descaramento
que invade tudo aquilo que quer possuir,
e no entanto não sabe como abraçar.
Mas um desastre está para breve
algo com que nunca sonhaste
porque tu não sonhas,
aquilo que Deus concebeu, Ele quer sentir por inteiro,
um desastre está para breve, as crianças e os bêbados sabem o que é,
só do amor pode brotar a alegria,
do amor sem paixão
só do amor pode brotar a alegria,
da alegria sem paixão,
as crianças e os bêbados sabem o que é…
Para seres, terias de viver,
mas não o farás porque não estás vivo,
e não estás vivo porque não amas,
porque não te amas, quanto mais amar o teu vizinho.
E estou farto da tua vulgaridade,
e se ainda não me matei é porque
a minha vida não é só minha
e ainda amo alguém porque me amo também…
Podes rir, mas só a águia-fêmea ataca outra águia
e só a filha de Briseida ataca Aquiles ferido.
Ser não é fácil… Cagar é fácil…



Vladimir Holan, «To the Enemy», Selected Poems, traduzido do Checo por Jarmila e Ian Milner, London: Penguin Books, 1971, pp. 54-55.

Versões: Abbas Kiarostami


Enquanto escurecia
o perfume dos cravos encheu o ar.


*


Um pássaro
canta no meio da noite;
até os outros pássaros
estranham.


Abbas KiarostamiA Wolf Lying in Wait – Selected Poems, traduzido do Persa por Karim Emami e Michael Beard, Tehran: Sokhan Publishers, 2005, p. 22.

Versões: Abbas Kiarostami


Acompanhei
a lua
até ao coração duma nuvem negra.
Bebi um pouco de vinho e adormeci.


*


A lua fica pálida
pela manhã.
A estrela desaparece
quando o galo canta.


Abbas Kiarostami, A Wolf Lying in Wait – Selected Poems, traduzido do Persa por Karim Emami e Michael Beard, Tehran: Sokhan Publishers, 2005, p. 21.

Versões: Derek Walcott


Elegia


A nossa rede balançou entre Américas,
sentimos a tua falta, Liberdade. Che
cai crivado de balas,
e aqueles que gritaram, a República deve morrer
para renascer, estão mortos,
cidadãos livres com uma urna enfiada na cabeça.
Mesmo assim, todos querem ir prá cama
com a Miss América. E, se não há pão,
que comam bolos.

Mas a velha escolha de correr, uivar, velho
lobo ferido floresta adentro,
enquanto os jornais proclamam
o genocídio, desapareceu;
nenhum rosto consegue esconder
a dor tornada pública,
o esgar petrificado.

Uma lasca de seta alojada no cérebro
faz uivar o cantor negro na sua armadilha para ursos,
os seus jovens olhos a arder com o brilho dos loucos,
a cansar os velhos com a sua tristeza residual;
e os primeiros lilases florescem no alpendre,
e a claridade da flor das cerejeiras
cega Washington e murmura
ao assassino na sua sala mobilada
uma América ideal, cujas oscilantes telas
mostram, em lentos bandos, os fantasmas dos Cheyennes
de pés esfarrapados e sussurrantes
em luta pelas planícies rodeadas de cercas eléctricas,

enquanto o casal emoldurado de agricultores góticos
como santos de Calvino, mordazes, pragmáticos, pobres,
seguram a forquilha do diabo
observando hirtos o trigo imortal.



Derek Walcott, «Elegy», Collected Poems: 1948-1984, London: Faber & Faber, 1992, pp. 109-110.

Versões: Derek Walcott


O porto


Ao fim do dia os pescadores a remar no regresso a casa
Não se apercebem do sossego que atravessam,
Também eu, desde o fim de tudo, não deveria pedir
Pelo seguro crepúsculo das tuas mãos calmas.
E a noite, carregada de velhas mentiras,
Iluminada pelas estrelas guardiãs dos arqueados montes,
Não ouvirá mais segredos daqui em diante; o tempo sabe
Que o mar é amargo e dissimulado, que o amor ergue muros.
Todavia, aqueles que observam o meu avanço sobre
Um mar mais cruel do que qualquer palavra
De amor, vêem a calma à minha passagem,
Desbravando novas águas com um antigo engano;
E é seguro pensar que os grandes transatlânticos
Ouvem o suave chapinhar de pés junto às estrelas.



Derek Walcott, «The Harbour», Collected Poems: 1948-1984, London: Faber & Faber, 1992, p. 7.

Versões: Nazim Hikmet


Hino à vida


O franja do teu cabelo
mexeu-se de repente.
De repente algo mexeu-se no chão.
As árvores
sussurraram no escuro.
Os teus braços nus irão ter frio.


Ao longe
onde a nossa vista não alcança,
a lua está a nascer.
Ainda não chegou até nós,
deslizando por entre as folhas
para te iluminar os ombros.
Mas sei
que com ela vem um vento.
As árvores sussurram.
Os teus braços nus irão ter frio.


Lá do cimo,
dos ramos perdidos no escuro,
algo caiu a teus pés.
Aproximas-te de mim.
A tua carne nua na minha mão é suave como a pele do pêssego.
Não é uma canção ou “senso comum”,
perante as árvores, pássaros, e insectos
a minha mão na carne da minha mulher
está a pensar.
Esta noite a minha mão
não consegue ler ou escrever.
Não é amar ou desamar…
É a língua dum leopardo numa fonte,
uma folha de videira,
a pata dum lobo.


Mexer, respirar, comer, beber.
A minha mão é como uma semente
deitada à terra.
Não é uma canção ou “senso comum”,
nem amar ou desamar,
a minha mão na carne da minha mulher
é a mão do primeiro homem.
Como uma raiz que encontra água,
diz-me:
“Comer, beber, frio, quente, combate, aroma, cor ―
não é viver para morrer
mas morrer para viver…”


E agora
enquanto o seu cabelo ruivo acaricia o meu rosto,
enquanto algo de repente se mexe no chão,
enquanto as árvores sussurram no escuro,
e enquanto a lua nasce ao longe
onde a nossa vista não alcança,
a minha mão na carne da minha mulher
perante as árvores, pássaros, e insectos,
quero o direito à vida,
do leopardo na fonte, da semente deitada à terra ―
do primeiro homem.



Nazim Hikmet, «Hymn to life», Poems of Nazim Hikmet, traduzido do Turco por Randy Blasing e Mutlu Konuk, New York: Persea Books, 2002, pp. 72-73.

Versões: Nazim Hikmet


Sobre a minha poesia


Não tenho cavalo prateado para montar,
nenhuma herança que me sustente,
nem riquezas nem terrenos ―
um pote de mel é tudo o que possuo.
Um pote de mel
vermelho como fogo!

O meu mel é tudo para mim.
Protejo
as minhas riquezas e os meus terrenos
― o pote de mel, quero dizer ―
de todo o tipo de pestilência.
Irmão, espera um momento…
Enquanto tiver
mel no meu pote,
até ele virão abelhas
de tão longe como Bagdad…



Nazim Hikmet, «About my poetry», Poems of Nazim Hikmet, traduzido do Turco por Randy Blasing e Mutlu Konuk, New York: Persea Books, 2002, p. 3.

Discos (258)



South Street Exit
(instrumental)

Eric Dolphy


Ontem estiveste reunido com a malta. E a malta há muito que não se reunia. Houve quem só fosse para casa às nove da noite, depois de cerveja servida como num casamento desde as três da tarde. Já não foste capaz de sair depois do jantar. Temeste pela tua saúde. Tiveste a ouvir um pouco de jazz. A malta não entende este teu fascínio pelo jazz. Tu ris quando eles te dizem isso. Como também não entendem a poesia que lês e que te atreves a escrever. Mas, como és da malta, perdoam-te essas tuas idiossincrasias. 


Versões: Wallace Stevens


Da Superfície das Coisas

I

Do meu quarto, o mundo está longe de ser compreensível;
Mas enquanto caminho verifico que é feito de quatro montes e uma nuvem.


II

Da minha varanda, observo o ar amarelado,
Leio o que escrevi,
“A Primavera é como uma rapariga a despir-se”.


III

A árvore dourada é azul.
O cantor cobriu-se com a sua capa.
A lua está nos vincos da capa.



Wallace Stevens, «Of the Surface of Things», Collected Poems, London: Faber and Faber, 2006, pp. 50-51.

Versões: Wallace Stevens


Seis Paisagens Significativas

VI

Racionalistas, a usar chapéus quadrados,
Pensam, em quartos quadrados,
A olhar para o chão,
A olhar para o tecto.
Limitam-se
Aos triângulos rectângulos.
Se experimentassem rombóides,
Cones, curvas e elipses ―
Como, por exemplo, a elipse da meia-lua ―
Os racionalistas usariam chapéus de abas largas.



Wallace Stevens, «Six Significant Landscapes» - VI, Collected Poems, Londres: Faber and Faber, 2006, p. 66.

Versões: Wallace Stevens


Seis Paisagens Significativas

III

Meço-me
Junto a uma grande árvore.
Descubro que sou mais alto,
Pois consigo chegar ao sol,
Com os meus olhos;
E consigo chegar ao mar
Com os meus ouvidos.
Ainda assim, não gosto
Da maneira como as formigas trepam
Pela minha sombra acima.



Wallace Stevens, «Six Significant Landscapes - III», Collected Poems, London: Faber and Faber, 2006, p. 65.

Versões: Wallace Stevens


Tatuagem


A luz como aranha.
Caminha sobre a água.
Caminha sobre arestas de neve.
Caminha sob as tuas pestanas
E prepara a sua teia ―
As suas duas teias.

As teias dos teus olhos
Estão presas
Aos teus ossos e carne
Como vigas ou erva.

São filamentos dos teus olhos
Na superfície da água
E nas arestas da neve.


Wallace Stevens, «Tattoo», Collected Poems, London: Faber and Faber, 2006, pp. 70-71.

Versões: Philip Larkin


XXVI


A primeira coisa
Que entendi:
O tempo é o eco dum machado
Dentro da madeira.


Philip Larkin, «XXVI», Collected Poems, Faber and Faber, 2003, p. 31.

Versões: Philip Larkin


XIX


Irmã Feia


Trinta degraus até ao meu quarto,
Deito-me na cama;
Deixo a música, o violino, o trompete a bateria
Adormecerem na minha cabeça.

Como não fui seduzido na adolescência
E revelado ao amor,
Irei atender às árvores e ao seu gracioso silêncio,
Mais ao vento que as move.



Philip Larkin, «XIX – Ugly Sister», Collected Poems, London: Faber and Faber, 2003, p. 23.

Versões: William Carlos Williams


Retrato proletário


Uma alta e jovem mulher
de avental

O cabelo atado parada
na rua

Um pé descalço a tocar
o passeio

Sapato numa mão. Observa-o
com cuidado

Retira a palmilha
para encontrar

O prego que a magoa


William Carlos Williams«Proletarian Portrait», The Collected Early Poems, New York: New Directions, 1951, p. 101.

Versões: William Carlos Williams


Outono

Um punhado de gente
junto a uma sepultura

aberta debaixo
de pesadas folhas

celebra
o aterro

para a nova estrada
onde

um homem velho
de joelhos

apanha num cesto
um molho

de ervas para
as suas cabras


William Carlos Williams, «Autumn», The Collected Early Poems, New York: New Directions, 1951, p. 408.

Versões: William Carlos Williams


A Vinda do Inverno


9/30


Não há ondas perfeitas ―
Aquilo que escreves é um mar
de frases incompreensíveis
e incapazes. Apruma. Procura

Um centro longe da terra
tocada pelas asas
de pássaros quase silenciosos
que nunca parecem repousar ―

Este é o lugar mais triste do mar ―
ondas todas desfeitas como palavras ―
o mesmo alegre e triste sentimento.

Debruço-me para ver em detalhe
a frágil falésia, a delicada
e imperfeita espuma, ervas amarelas
iguais umas às outras ―

Não há esperança ― a não ser a ilha
de coral que se forma lentamente
à espera que os pássaros deixem cair
as sementes que a tornarão habitável



William Carlos Williams, «The Descent of Winter – 9/30», The Collected Early Poems, New York: New Directions, 1951, p. 298.