António José Fernandes


Para a vida perfeita


Não exponhas os teus sonhos à lama da rotina
Não cortes nos teus pulsos a veia de acrobata
Não durmas imprestável na beira da voragem
Não pises o vestígio do riso original
Não temas o silêncio da única viagem
Não fujas da extensão dos golpes encobertos
Não feches a revolta na casa dos segredos
Não canses as surpresas na pressa da alcançar
Não quebres a pureza dos beijos impossíveis
Não finjas as palavras que as lágrimas sustentam


em Ainda não é tarde, Lisboa: Edição do Autor, 1955, p. 47.

(...)


Ontem à noite o trompete de Hubbard afastou o gato da sala. Não é a primeira fez que ele se afasta devido à música que ouço, mas é a primeira vez que isso acontece quando Hubbard está a tocar. E ainda não ouviu Spring, de Tony Williams, onde os saxofones de Shorter e Rivers partem a louça toda. Mas, um destes dias, lá terá de ser.

Um poema de Tatiana Faia



Circunstancial


as pontes da manhã
afundam-se neste copo de papel cheio de café
ainda que tu esperes notícias
ou dês por ti ocupando de novo
o lugar onde têm dormido os teus homens
e a garganta seca espere por água
como os olhos esperam pelo despertar
tardio num dia de semana
tão cedo e já sentada à secretária
no teu local trabalho
sendo inimaginável o teu ofício

enche-se de gin um copo ao fim do dia
e os objectos não se compõem
com a facilidade com que o último dos curadores
organiza objectos mínimos nos expositores
são delicados os seus gestos
e os teus pensamentos têm a violência
de um fundo de lâminas
arranham como certas cordas
aquelas que equilibram o som das canções
onde algumas vozes roucas de repente
nos pubs onde se juntam os profissionais
de sexta-feira à tarde

e claro o teu coração afoga-se
na brancura do papel no colarinho da camisa
na promessa de algumas palavras
escrevinhadas a negro rápidas como os vultos
que diante da janela se movem
junho fecha as asas rápido como um pássaro
atordoado pela notícia de mais um inverno precoce
o seu equilíbrio numa só pata
enquanto à tua volta
eles desapertam gravatas
mastigam em silêncio os seus hambúrgueres

o tempo só pára de existir à sexta-feira à tarde

ele cujos modos são tão
anódinos

que nunca diria uma palavra que comprometesse
isto é que ferisse
mede agora a distância entre os polegares e o pescoço

ao desapertar o nó da manhã em redor do pescoço
tu queres livrar-te dele e do dia
queres um lugar onde os gaúchos não voltem
para falar das suas facas
e inglaterra é um poema que ainda não escreveste

tu ias dizer-me em algum ponto
que era imaculado o amor dele
como estações de comboios
ladeadas de verde com previsão de lagos
ao redor
ou a fome estampada nos olhos
no instante antes de comparecermos
antes de começarmos
com fome laboral
a devorar os nossos jantares

o sacrifício quotidiano
é capaz de ser
o adensar de uma distância antes breve

ou capturar a precedência urgente
assumida por certas expressões
como por exemplo:

como me têm divertido
estes homens e os seus leões


em Pombos Lerdos, s/l: Medula, 2018, pp. 21-24.

Pombos Lerdos



Pombos Lerdos
Ana Bessa Carvalho | F. S. Hill | Henrique Manuel Bento Fialho
João Alexandre Lopes | 
Jorge Aguiar Oliveira | José Ricardo Nunes
m. parissy | 
manuel a. domingos | Maria João Lopes Fernandes
Rui Almeida | 
Rute Mota | Tatiana Faia.
Medula
26 pp.

8 €

Tiragem única de 100 exemplares

Pedidos: medulalivros@gmail.com

José Alberto Oliveira


A faca sem lâmina
(versão para trem de cozinha e trombone)


A estética, por exemplo, das armas
de fogo; um manifesto a proclamar
a higiene da guerra — será, portanto, banal,
acumular pó e catar lêndeas.

Conselhos práticos: desdenhar
prescrições, ignorar avisos,
evitar conselhos, apostar
que a vida nos fala ao ouvido,

para não ter que dar um tiro
nos cornos. O sublime? — a melodia
dos martelos pneumáticos, o cinzeiro
atulhado de beatas, um copo vazio.


em De Passagem, Lisboa: Assírio & Alvim, 2018, p. 78.

Discos (282)




Rat Now
(instrumental)

Mal Waldron



O que resta, afinal? Chegas a casa e trazes o estouro do dia. Cada osso do teu corpo acusa a canga do trabalho. A liberdade, a esta hora, soa-te a eufemismo. O gato olha para ti. Há um leve miar. Passas a mão pelo seu dorso. Permanece no mesmo lugar onde o deixaste de manhã, como se o tempo não tivesse passado. E talvez o tempo não tenha passado, pois é todos os dias a mesma coisa.

Um poema de Carlos Ferreira Gomes


Nos primeiros tempos
interrogamos vidros,
a sua primorosa organização.
Longa e feroz permanência
contra o coração como limite.
Tão ignorada é a voz, os sítios
da face da sua infância.


em Alguns passos por Ilybe, Porto: Gota de Água | Imprensa Nacional - Casa da Moeda, 1984, p. 19

Lí por aí


Agustina diz que não crê que o trabalha precise de amor.  «O amor é uma forma de medo, não sei se me entendeis.» Entendo, mas não concordo. O amor é uma forma de coragem. O trabalho, também.

Estados Filosóficos (98)


Procurar que o silêncio seja método. 

Ensino Recorrente


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(...)


Dentro de um carro está um cão. Do lado de fora está uma mão. A mão atiça o cão que está dentro do carro. A mão bate no vidro do carro onde está o cão. A mão ri enquanto o cão ladra e rosna. À volta do carro estão crianças que olham e riem do cão que está dentro do carro e ladra e rosna enquanto a mão bate no vidro do carro onde está o cão. A mão continua a rir. O cão ladra. Rosna. As crianças.

Discos (281)




Suyafhu Skin... Snapping the Hollow Reed
(instrumental)

David Torn


para o Ricardo Álvaro

A esta hora do dia pouco mais há a fazer. Resta o corpo sobre o sofá, a luz a entrar pela janela. Os livros, esses, estão desarrumados nas estantes e um breve vento faz agitar as árvores. Começo a aprender as vantagens do isolamento voluntário, quando aqui me fecho e deixo o mundo no seu lugar: lá fora. Será que posso falar em misantropia? Longe disso, tendo em conta que gosto da companhia de certos amigos e de amigos certos, que procuro menos vezes do que aquilo que eles merecem. Pouco mais há a fazer. Resta o corpo sobre o sofá, a luz a entrar pela janela. Talvez um pouco de poesia. Mas vamos deixá-la, por hoje, em paz.

Shots - Manuel de Freitas



Manuel de Freitas
Shots
Paralelo W
2018

Estados Filosóficos (97)



O reaccionário de hoje foi o revolucionário de ontem. E o revolucionário de hoje será o reaccionário de amanhã. Todavia, isso não significa que a História se repita.

Estados Filosóficos (96)



Ouves: "acontece sempre aos melhores". E procuras entender como é que isso pode ser consolo para o teu fracasso.

Estados Filosóficos (95)



A dignidade de todo e qualquer ser deriva da sua capacidade de tolerar o outro enquanto semelhante. Caso tal facto não se concretize, a dignidade passa a ser bestialidade. Isto é: todo e qualquer ser transforma-se em ser humano.

José Alberto Oliveira


Sing another song, boys

Não é a notícia da morte,
nem a própria morte:
é não saber o que fazer
com a vida.

Entre as gotas de chuva
e as derrocadas da alma,
onde enfrentar o silêncio?
Não é não haver

água quente e a fria
estar por um fio,
é o duche matinal
ser como banho de lama,

como pancada no estômago.
Poderia cantar-se
outra canção,
mas para quem

e para quê,
se quem ouve
tem outros afazeres, outros
cuidados para atender?

Nem eu, que tenho
sido um modelo de virtude,
sinto o desejo
ou o dever de censurá-los.


em De passagem, Lisboa: Assírio & Alvim, 2018, pp. 48-49.

(...)


Pouco trânsito à vinda. Atravessei a cidade sem dificuldade. Só os semáforos fizeram parar-arrancar. Junto aos colégios privados: nenhum movimento. Devem ter ido passar o fim-de-semana a Roma ou Nova Iorque. Ou a Moledo. Por aqui: tudo na mesma. Os alunos recusam-se a trabalhar. Abrem a boca. Não passam nada do quadro. A maior parte deles tem medo da CPCJ e, por isso, vem às aulas. Gostaria muito de dizer "eles gostam de aprender". Mas não é verdade.

Uma imagem para o dia



(...)


Hoje, pela terceira vez, partiram o vidro da janela da sala de aula. As auxiliares de acção educativa, pela terceira vez, colocaram papel autocolante a servir de remendo, pois não há verba para tanto vidro partido.

Discos (280)



Homecoming
(instrumental)

Dave Holland


Não sei onde estava no dia nove de Novembro de mil novecentos e oitenta e cinco. Sei apenas que foi Sábado. Assim, o mais certo era estar em casa, provavelmente a ver um filme na TVE1. Estaria frio, a lareira estaria acesa e o Mickey, o meu cão da altura, estaria deitado junto àquela, pois era muito friorento. A minha Mãe estaria de certeza a fazer malha-para-fora, que era a sua maneira de ganhar mais algum. Ou, então, estaria a fazer malha-para-dentro, que era a sua maneira de poupar dinheiro e manter-me agasalhado e quente. Agora, no dia vinte e três de Abril de dois mil e dezoito, o Mickey há muito que deixou o frio para trás. A minha Mãe há muito que deixou de fazer malha-para-fora e malha-para-dentro. O tempo está ameno. Não chove. Há muito que não vejo a TVE1. E, como é óbvio, estou mais velho.

Moriturus e Outros Textos - Henri Michaux



Henri Michaux
Moriturus e Outros Textos
Tradução e Organização de Rui Caeiro
Língua Morta
2018


Gil de Carvalho



Falar em dívida é ficarmos em dívida com aqueles que nada nos devem. Gil de Carvalho nada me deve. Nada nos deve. Mas considero que estamos em dívida para com o autor de Viagens. Gil de Carvalho é o responsável por um belo conjunto de poemas em nome próprio, mas também pelas versões que doutros poetas e poemas fez. São da sua responsabilidade as recolhas Uma Antologia de Poesia Chinesa e Poemas Anónimos - Turcos, Mongóis, Chineses e Incertos. Gil de Carvalho é uma presença discreta mas constante na poesia portuguesa dos últimos trinta anos. Passa, na maior parte das vezes, despercebido. 

Um poema de Gil de Carvalho


Na Ásia

As vozes nos telhados de tesoura
São da que gentilmente
Transpõe este rio, curvado
A barcaças de remoção de fundos.
Restos de neve em Hohhot.
O amor passa ou não
Passa, corrente.
Acende a luz no busca-pólos, devagar.
Mene, peres, teqel
Constelações em terro e do firmamento, azul.


em Entrepostos, Lisboa: Cotovia, 1993, p. 23.

Livros (156)



O autor teve o cuidado de avisar o leitor: relatos. Não são contos. Não são estórias. São relatos. Depois das primeiras páginas, dos primeiros relatos, o leitor entende o aviso do autor. A Cidade de Cobre é um livro que nos coloca no centro daquilo que está a ser relatado. As técnicas cinematográficas, e a língua utilizada no cinema, não são estranhas ao autor: o travelling, por exemplo, é recorrente. Mas, aquilo que mais se destaca, é o uso da língua portuguesa. Certas estruturas inusitadas imprimem um tom muito peculiar e próprio, que pode ser considerado estranho ao início. Tal como na sua poesia, Gil de Carvalho cria todo um mundo próprio e original. Essa sua criação, esse mundo, não cede ao facilitismo, à escrita-a-metro. Um autor que merecia, sem dúvida, mais reconhecimento.