Discos (236)



One Finger Snap
(instrumental)

Herbie Hancock


Essa coisa do tempo. Dizer "houve um tempo" como se fosses já demasiado velho. Afinal tens apenas trinta e nove anos. Ou: trinta e nove primaveras. Muitas vezes pensaste por que razão não se dirá "trinta e nove outonos", ou "verões", ou "invernos". Por que razão "primaveras"? Logo essa estação, a que te traz mais alergias (não confundir com alegrias). A verdade é que sempre preferiste o Outono. É nele que te sentes bem. Também é a estação do ano mais bonita na tua vila, quando o verde dá lugar a uma série de cores. Mas isso agora pouco importa. "Houve um tempo" em que isso te dizia mais do que hoje.

(...)


Sabes que começa a ficar frio quando o gato, durante a noite, procura o calor do teu corpo. Enrola e encosta-se a ti. Depois: ali fica e a sua respiração torna-se cada vez mais pesada e lenta. O contra-baixo de Gary Peacock e o piano de Marc Copland enchem o quarto, enquanto Graham Greene, sobre a cama, espera pacientemente a tua mão, leitura. Lá fora há um cão que ladra. Talvez procure afastar de si a noite, os seus exércitos. Os teus olhos pesam. E acabas por adormecer. 

Escreves sempre...


Escreves sempre
deus com minúsculas —
nunca em ti sentiste
a sua maiúscula
presença

Nem nas árvores
ou animais — muito
menos nos olhos
de outros como tu
homens

Fisioterapia - F. S. Hill



F. S. Hill
Fisioterapia
(não) edições
2016

(...)


Quinze dias depois e o gato está mais gordo e as árvores começam a mudar de cor. Aqui, já dormi com um cobertor na cama. Na aparelhagem o blues de John Fahey. Na rua há menos gente. Devem andar a preparar as vindimas. Começam a ver-se carros carregados de fetos e pinhas e lenha. A vila começa a preparar-se para o Outono e Inverno. Mas ainda há um resto de sol.

(...)


Todos os anos, por esta altura, é sempre a mesma coisa. Arrumar as tralhas, procurar a casa. Todos os anos há algo de novo. No outro dia alguém me pediu duzentos euros/tudo incluído por um quarto (com casa-de-banho e serventia de cozinha). Até aqui tudo bem, apesar de considerar ser um abuso por um quarto. Mas depois chegou a novidade: "são duzentos euros/tudo incluído, mas se passar vinte euros do valor que costumo pagar, paga o valor a mais.". Outra novidade: "o quarto são duzentos e cinquenta euros/tudo incluído, mais cinquenta euros se quiser tratar da roupa.". Isto é: iria pagar mais cinquenta euros para lavar a roupa. Inacreditável?  Não: é mesmo verdade. Justificação: "tenho a máquina-de-lavar na casa-de-banho do meu quarto.". E depois há aquelas pessoas que têm "casas" e "quartos" para alugar, mas esquecem coisas essenciais, como por exemplo o fogão: "ah! como é professor pensava que comia fora!". Ou a máquina-de-lavar: "ah! como é professor pensava que ia todos os fim-de-semana a casa e tratava da roupa lá!". Podem não acreditar, mas já fui ver um "quarto" sem roupeiro: "ah! como é professor pensava que a roupa ficava na mala!". Tudo isto é verdade. Triste. Mas é verdade.

Duas pequenas notas e não volto mais a estes assuntos (16)


1. Christopher Hitchens publicou, em Outubro de 2003, o texto Mommie Dearest, sobre a beatificação daquela que hoje é conhecida como Santa Madre Teresa de Calcutá. É um texto forte, pungente e sem papas na língua. Em determinado ponto o autor remete-nos para um texto, de Orwell, onde Gandhi é desancado: «Saints should always be judged guilty until they are proved innocent, but the tests that have to be applied to them are not, of course, the same in all cases. In Gandhi’s case the questions one feels inclined to ask are: to what extend was Gandhi moved by vanity – by the consciouness of himself as a humble, naked old man, sitting on a praying-mat and shaking empires by sheer spirutual power – and to what extend did he compromise his own principles by entering into politics, which of their nature are inseparable from coercion and fraud?». («Reflections on Gandhi», Shooting an Elephant and Other Essays, 2009, p. 347). Gosto de Gandhi. No entanto, não posso deixar de me questionar, ao ler as palavras de Orwell. Em relação a Santa Madre Teresa de Calcutá, a situação, quanto a mim, é completamente diferente, porque se encontra no campo oposto ao de Gandhi, pois este nunca foi canonizado, tendo em conta que nunca pertenceu à Igreja Católica (se tivesses pertencido não tenho dúvidas de que já seria Santo há muito). No entanto, se tudo aquilo que Hitchens escreveu é verdade, nomeadamente: «she was a friend to the worst of the rich, taking misappropriated money from the atrocious Duvalier family in Haiti (whose rule she praised in return) and from Charles Keating of the Lincoln Savings and Loan. Where did that money, and all the other donations, go?»: temos, sem dúvida alguma, que nos questionar.


2. Todavia, temos que pensar que a Igreja Católica e seus seguidores sempre foram um alvo fácil, principalmente para um intelectual como Hitchens. Não nos podemos esquecer que a Igreja Católica é composta por homens e mulheres, com todas as virtudes e defeitos. As fragilidades são mais do que muitas. O problema é que a maior parte das vezes queremos uma Igreja Católica à nossa imagem e semelhança, principalmente quando a ela não pertencemos, ou dela nos afastámos. A verdade é que queremos uma Igreja Católica que defenda o aborto, a contracepção, a eutanásia, o casamento entre pessoas do mesmo género, todas essas coisas que defendemos (eu, pelo menos, defendo). Mas também foi Orwell que um dia escreveu: «Uma das analogias entre comunismo e catolicismo é que só os indivíduos com estudos são completamente ortodoxos» (O caminho para Wigan Pier, 2003, p. 217). Sirvo-me desta frase de Orwell apenas para ilustrar a questão da ortodoxia. Pois é disso que se trata: tanto do lado da Igreja Católica, ao canonizar Santa Madre Teresa de Calcutá, como do lado de Hitchens, ao demonizar a mesma Santa. Neste género de questões, discussões, a heterodoxia não é bem-vinda, pois não é no seu campo que a bola é jogada. Ser heterodoxo, nestas questões, é estar sempre fora de jogo.

Georg Simmel


Os problemas mais profundos da vida moderna provêm da pretensão do indivíduo de resguardar a autonomia e a peculiaridade da sua existência em face das prepotências da sociedade, da herança histórica, da cultura exterior e da técnica da vida — a última reestruturação a ser alcançada da luta com a natureza, que o homem primitivo teve de levar a cabo em prol da sua existência corpórea.


em As Grandes Cidades e a Vida do Espírito, tradução de Artur Morão, Covilhã: Universidade da Beira Interior, Colecção Artigos LusoSofia, 2009, p. 3.

Discos (235)




Soweto Sorrow
(instrumental)

Romano | Sclavis | Texier


Calor. Sente-se e respira-se. A ventoinha tenta a custo. O gato à janela procura a frescura da noite. Na sala os teus pais procuram um canal de televisão. Têm mais de cento e cinquenta canais mas é-lhes difícil escolher um. Tu entendes bem isso: o lixo, afinal, é muito; e no meio dele dificilmente uma flor crescerá. Nos teus ouvidos Romano | Sclavis | Texier. A noite, por momentos, parece menos quente. Embora o suor, nas tuas costas, te diga o contrário.

(...)


Preparo o corpo para a tarefa de empacotar, embalar. Sacos e malas esperam sair da penumbra dos seus cantos, esquecidos que estiveram durante um mês. Penso muitas vezes na possibilidade de a minha vida caber toda dentro duma mala. E de ser essa a única coisa coisa que tenho para oferecer. E de ser essa a única coisa que tenho e que posso em verdade dizer que é minha. Sei que estou sempre a dizer o mesmo. Mas o certo é ir para o meu décimo quinto ano de estrada, porque, na realidade, é a única carreira profissional que tenho: a estrada. É a única onde tenho progredido.

O Tempo dos Assassinos - Henry Miller



Henry Miller
O Tempo dos Assassinos
tradução de José Miranda Justo
Antígona
2016


Discos (234)



Caractacus
(instrumental)

John Surman


Noite. Sempre a noite. A casa, outra vez. O gato. Janela e revês o silêncio da rua, das casas, da penumbra dos candeeiros. Apetece-te sair e dançar no meio da rua. Há o decoro, o bom-senso. A noite está fresca e dançar seria pouco para a celebrar. E, afinal, como dançar ao som do som, ao som do peso dos dias? 

(...)


Sentei-me à sombra de uma casa. Escrevi:

"Acabo de descer a Rua do Triunfo, que vai desaguar ao Largo do Eirô. Desci a caminhar, passo lento, observando cada porta, janela. Houve um tempo em que a desci várias vezes a correr, a desoras, noite dentro. Ou gritávamos ou tocávamos a todas as campainhas. O mundo era nosso com todas as suas promessas. Encontro, hoje, casas envelhecidas, com rostos envelhecidos. Janelas fechadas e "Já Era". Noutro tempo esta rua era uma das mais habitadas da vila, a par com a Rua de Santo António. Agora: é apenas um reflexo da vila no seu todo. Ruas e casas vazias. Rostos envelhecidos. Solidão vertical."

Enquanto escrevia estas linhas, há uma senhora a varrer o seu pedaço de rua. Parece querer contrariar-me. Parece dizer-me "eu ainda aqui estou".

Discos (233)



Composition 23 B
(instrumental)

Anthony Braxton


Há um silêncio que percorre a casa e tu, de auriculares, ouves aquilo que poderá ser uma noite feérica. O gato observa-te. Parece deslumbrado, mas sabes apenas que olha para ti na esperança de uma mão pelo dorso. Abres a janela e observas. Sentes uma leve brisa fresca que saúda. Algum conforto, finalmente, apesar da ventoinha ligada a teus pés. Na rua nenhum movimento. Nada. A noite é feérica. E estala-te nos ouvidos.

Livros (138)




Na peça de teatro Simplesmente Complicado, Bernhard dá-nos a conhecer as obsessões, traumas, angústias de um velho homem enclausurado na sua própria casa, que cria e recria à sua imagem e semelhança. O personagem debate-se com a doença, a velhice e a proximidade do fim. Bernhard coloca o dedo na ferida: a loucura está mais perto de nós do que aquilo que pensamos; rapidamente se pode apoderar do nosso corpo e mente. Simplesmente Complicado é uma alegoria à nossa frágil e perene condição humana.

Duas pequenas notas e não volto mais a estes assuntos (15)


1. A Liberdade é uma coisa muito bonita. Sou o primeiro a defender a minha. E, devido a isso, considero que o maior erro das chamadas (ou auto-intituladas?) forças progressistas seja o quererem, à força de Lei e de Decretos, defender a Liberdade dos outros. Contudo, quando o “progressismo” lhes bate à porta, aqui del-rei que me querem privar da minha liberdade. O maior erro, quanto a mim, é considerar que os outros não são capazes de se defender a si mesmos. Resumindo: que são uns incapazes, e que temos de ser nós, os “progressistas”, a defendê-la. O problema é que a minha liberdade não é a tua liberdade, mas não defendo que a minha liberdade termina onde a tua começa. Não. Considero que o meu “círculo” de liberdade se pode juntar ao teu e, dessa maneira, a minha liberdade e a tua ser aumentada. É claro que isso coloca vários problemas e várias questões, que deverão ser sempre (quanto a mim) resolvidas através do diálogo e do respeito mútuo, algo que sei ser muito difícil. Todavia, penso que não é à base de decretos que lá vamos. Não. Tentar regular a Liberdade é o mesmo que tentar regular o tracto intestinal: ou sai demasiada merda ou fica tudo entupido.


2. O famigerado caso de Ponte de Sor é um bom exemplo daquilo que a comunicação social não deve fazer. Dar tempo de antena aos filhos do Embaixador do Iraque é, no mínimo, questionável. É claro que existem as audiências, a publicidade e todas essas questões. Mas há uma investigação a decorrer e a defesa/acusação de alguém não deve ser feita nos canais de televisão, ou nos jornais. É claro que que não é a primeira vez que tal acontece. Temos tido nos últimos anos bastantes casos mediáticos que foram “julgados” na chamada praça pública. Tal facto poderá ter condicionado os tribunais. Talvez. Não sou jurista.

Ciril Jazbec



Greenland, 2013
© Ciril Jazbec

(...)



Por aqui tenho vindo a criar um hábito. Levanto-me e vou beber o primeiro café ao Nevão (onde tiram a melhor bica do país). Raro o dia em que não bebo dois. Raro. Depois rumo à Casa da Árvore, onde peço uma Pedras. Fresca. Abro o caderno de capas negras e boto letra. A maior parte daquilo que neles escrevo irá neles permanecer. Algumas coisa já t|em passado para outros registos. Mas o essencial, a maioria, nunca irá ver outro papel que não seja o dos cadernos.

Rudy Van Gelder (1924-2016)




Quando compro cds de jazz, procuro sempre aqueles que dizem Rudy Van Gelder Edition, pois sempre soube que estaria a comprar qualidade. Há o jazz antes e depois de Van Gelder. Hoje poderíamos ouvir o que ouvimos sem a produção de Van Gelder. Mas não seria a mesma coisa.

Um poema de Teresa M. G. Jardim


Eu vivo aqui


Não me deixes
na emboscada de uma sombra
não me concedas um amor
duradouro.
Continua a dar-me em cada manhã
a revelação das mãos, os peixes vermelhos
as ribeiras amansadas pelas buganvílias,
os rituais de preguiça
a urze vigilante.

Eu vivo aqui
no desenho mais alto da Ilha
temente dos muitos caminhos
por onde a água pode sumir-se.


em Jogos Radicais, Lisboa: Assírio & Alvim, 2010, p. 40.

Dave Sandford



© Dave Sandford

(...)


Cheguei há pouco a casa. Fui fazer a minha caminhada habitual pelas ruas da vila. Por mais que me tente encontrar nelas: não consigo. Admiro aqueles que estiveram fora e regressaram para aqui fazer vida. Admiro a sua coragem, resiliência. Desde 2001 que ando por aí. Ponte de Lima é o meu limite a norte; Silves a sul. Há quem me diga que "vida não me falta". Sorrio sempre ao ouvir isto. Entendo aquilo que me querem dizer, mas sorrio sempre. Sei que são muitos quilómetros de estrada por este país. São muitas as experiências. Cruzei-me com pessoas de todos os géneros e feitios. Vivi em sótãos, apartamentos, quartos, vivendas, anexos. Já passei muito frio para poupar na electricidade, numa tentativa inglória de não me sobrar mês. Nunca poupei na comida. Nem na poesia (apesar de não comprar todos os livros que me apetece comprar). E devido a tudo isto há quem me diga que "vida não me falta". No entanto, encontro mais vida numa pedra do ribeiro da vila; mais vida na nogueira e na sua sombra, que sempre me ensinaram a evitar; mais vida nos pastores que deixei de ver a cruzarem as ruas com os seus rebanhos (embora nunca lhes tenha cobiçado a vida que tinham); mais vida numa senhora que sei nunca ter visto o mar e que nunca sentiu falta de o ver. 

Discos (232)




Oh, I don't know how I think this way

New Order

Durante a adolescência há muita coisa escusada. Recordo perfeitamente a excessiva emotividade em relação a tudo. Nada doía mais do que a dor que eu sentia em relação ao facto de tu, algures, não saberes que eu existia. Não havia pior destino do que o meu destino: desterrado numa vila onde a chuva era uma constante e o nevoeiro um pastiche do nevoeiro dessas cidades que chegavam a mim através das bandas que ouvia. Horas e horas a olhar para o tecto. Horas e horas a imaginar-me longe. 

Livros (137)




Foram já três (3) as tentativas de ler tão influente livro. E apenas posso dizer uma coisa: é chato, enfadonho e intragável. Li com gosto (e em inglês) Dubliners e A Portrait of the Artist as a Young Man. Li-os na praia. Ficaram-me. Este também me ficou. Como algo atravessado.