Trocar os Mapas - Textos de António Amaral Tavares



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Discos (246)




Fedora
(instrumental)

Kenny Wheeler | John Taylor


A manhã é melancolia. A luz quebra-se na estrada para o trabalho. Sempre disseste que trabalhas para viver. Mas tens cada vez mais dúvidas. Cada vez mais te parece que vives para o trabalho, tal a maneira como ele te absorve. O salário começa apenas a garantir o pagamento das despesas fixas e pouco mais do que isso: renda da casa, luz, gás, água, alimentação. Os "pequenos luxos" começam cada vez mais a ser cada vez menos. Mas ainda te resta a melodia de uma trompete. A leveza de um piano. Ao menos isso.

Uma imagem para o dia



Discos (245)




Für Alina No. 1
(piano)

Arvo Pärt

Da janela vês a montanha à tua frente: branca. Cai uma leve água-de-neve pela tarde dentro. O gato repousa no lugar de sempre. O aquecimento central garante o conforto necessário ao desencanto. Arrastas um livro para junto de ti, só que os olhos resistem às palavras. Olhas pela janela, mais uma vez, a montanha à tua frente: branca. A vila fecha-se sobre si mesma. Cai uma leve água-de-neve pela tarde dentro. 

(...)



Quando José Saramago ganhou o Nobel da Literatura, o Tal & Qual sondou várias pessoas e fez a pergunta: "Saramago ou Lobo Antunes?". Lembro-me muito bem da resposta de João Lagarto: "José Cardoso Pires". Também sempre fui mais Cardoso Pires. Em parte devido aos livros que, em casa dos meus pais, existiam do autor de O Delfim. Mas, em especial, devido a esta dedicatória:

Para Rosendo,
mexilhão do Reino,
cordialmente

José Cardoso Pires
out. 73

Uma imagem para o dia



(...)


O gato, ontem durante a noite, decidiu dormir na sua cama. Tal era o sono que tinhas (duas noites mal-dormidas fazem-te isso) que mal apagaste a luz apagaste também. O gato deve ter andado, durante algum tempo, em explorações nocturnas. Talvez procurasse a sua Ítaca. Não sei se encontrou sereias pelo caminho, ou se encontrou "Ninguém". Apenas sei que hoje pela manhã estava aninhado na sua cama e não vi sinais de Circe.

Livros (146)



Agora que comecei a ler a Ilíada, relembro a leitura que fiz da Odisseia. Todos os anos leio, aos meus alunos, a versão de Maria Alberta Menéres: Ulisses. E todos os anos me interrogo: e se Ulisses tivesse dito não? e se ele preferisse ficar com Circe em vez de regressar a casa? e se ele? e se? E sei que já existe bastante recusa em Ulisses, nomeadamente no que diz respeito ao "jogo" que com ele os deuses jogam. Mas, e se?

(...)


Procuras estar atento ao mundo. Todavia, cada vez mais te interessa menos aquilo que nele se passa, como se a ele já não pertencesses. É claro que sabes ser um exagero tal pensamento. Mas também é certo que sempre foste um exagerado, muito dado à hipérbole.



Adenda: é um exagero este pequeno desabafo ter duas recomendações no Google +.

Discos (244)




Siete Ocho
(instrumental)

Andrew Hill


O gato à solta pela casa. Corre de um lado-pró-outro com uma velocidade digna de chita. Corre, salta, simula um ataque sobre presa imaginária. Lá fora o dia tende para o fim. Siete Ocho abre a noite e decides que estás melhor à meia-luz. Só que não há candeeiro que te valha e a meia-luz é-te apenas em pensamento. O gato continua a caça às sombras. Siete Ocho. O dia e o seu fim.

(...)


Várias vezes a ideia de uma volta ao mundo. Cada vez mais a ideia fica para trás. O mundo, como sabes, há muito se tornou num lugar pouco recomendável. E agora: desaconselhável. Dizem que é sinal dos tempos. Para ti é apenas a confirmação duma certeza: não prestamos. Nunca fomos "boa gente". 

Uma imagem para o dia



(...)


Do mau tempo previsto só tiveste aquilo que não estava previsto: uma noite mal-dormida.

Cão Celeste - nº. 10




Capa
Daniela Gomes

Colaborações


Abel Neves | Ana Menezes | Ana Paula Inácio | António Barahona | Bruno Borges | Bruno Dias | Cláudia Dias | Daniela Fortuna | Débora Figueiredo | Emanuel Jorge Botelho | E. M. de Melo e Castro | Fábio Neves Marcelino | Fabio Weintraub | Fernando Guerreiro | Gil de Carvalho | Guilherme Faria | Hélia Correia | Henrique Manuel Bento Fialho | Hugo Pinto Santos | Inês Dias | Isabel Baraona | Isabel Nogueira | Jaime Rocha | João Alves | João Barrento | João Chambel | João Concha | Jorge Roque | José Ángel Cilleruelo | José Feitor | José Miguel Silva | Leonor Figueiredo | Luca Argel | Luís França | Luís Henriques | Manuel A. Domingos | Manuel de Freitas | Manuel Diogo | Maria da Conceição Caleiro | Mário Alberto | Miguel Martins | Miguel Pereira | Pádua Fernandes | Paulo da Costa Domingos | Pedro Burgos | Raymund Krumme | Ricardo Castro | Rik Lina | Rui Nunes | Rui Pires Cabral | Sebastian Brant | Tania de Léon | Thomas Bewick | Urbano | Vanda Brotas Gonçalves | Vítor Silva Tavares | Zepe

Pensamento do dia



«Ramming Speed!»
Ben-Hur
William Wyler
1959

Discos (243)




All or Nothing at All
(instrumental)

Arthur Altman



Nunca foste muito de baladas mas há a chuva lá fora, o gato sobre o sofá e a vontade de dias menos húmidos, frios. "Deve estar a nevar na Serra", pensas, pois é um pensamento que te invade muitas vezes. Não lembras já a última vez que viste nevar e tu no teu quarto debaixo dos cobertores. Também esses são dias bons para baladas. Agora, a esta hora, é a chuva no vidro da janela.

(...)


Nunca te habituaste à humidade e esta chuva dá-te cabo dos ossos, para não falar da paciência. Verdade seja dita: a paciência é algo que começas a perder, ou pelo menos a ter menos. Sim: menos paciência. Ontem começaste a ler a Ilíada e a primeira coisa que veio ao pensamento foi "não sei se vou ter paciência para isto". É raro pensares isso de um livro. Mas, ontem, pensaste. E depois há ainda o "we are taking names" que ouves do lado de lá do Atlântico. "We are taking names": como se o resto da malta fosse uma cambada de miúdos mal-comportados e os nomes estivessem a ser apontados no quadro, como era feito na escola primária. 

Um poema de Emanuel Jorge Botelho


vou dormir meu amor, o primeiro gesto vai
para o apagar do candeeiro, andamos presos
a coisas simples como vês; a mão a ir-se

gastando longe

da pele de leopardo, a boca a dar-se à luxúria da saliva
e o último olhar para o abismo
entre o colchão e a carpete, depois o medo,
o cuidado com que assinalamos a última página

do livro

esta função bizarra dada aos dedos como se amanhã o sangue fosse
uma clave branca convertida ao silêncio — meu amor — há até quem ore,
quem ponha na mão um dardo
para o exorcismo da luz. e depois este corpo sobre a mesa
de cabeceira — a água sempre
uma promessa de despertar agarrada aos lábios; o gesto
que o fogo guarda. coisas simples como vês, nada sobre

o anoitecer da pedra


em Cesuras, Lisboa: Gota de Água | Imprensa Nacional - Casa da Moeda, 1982, p. 21.

Uma imagem para o dia



(...)


Acordas e a casa em silêncio. O gato ao fundo da cama. Lá fora está sol e arriscas uma ida ao terraço. Um vento gelado diz bom dia mais os dois graus no termómetro. São dez da manhã. Vais tirar a cinza ao fogão e acendê-lo. O crepitar da madeira é um lugar-comum que te sabe bem. O gato mia e a comida é-lhe servida. O cheiro a café-de-saco. 

Discos (242)




And I can see so far away yes so far away
Well I can see the shadows fall across your face

Morphine



Das várias estórias que tenho com o meu pai, esta é uma delas. Estávamos os dois um dia no escritório cá de casa (que também era o meu quarto), e o meu pai sofria com a música que ouvia, que era a música que eu ouvia. Mas um dia não. Um dia perguntei-lhe ― desligo isto? ― ao que ele respondeu ― não, pá. deixa estar.

Fernando Guerreiro


Escrevemos sempre de costas voltadas
para a morte, à espera que as palavras
se desprendam das ogivas do silêncio,
iludidas com o cenário que o mundo
compõe com os restos da aventura.
Vindas de dentro não é de estranhar
que sejam de dor os sentimentos,
recortados na espessura da ideia
a que o convívio com os deuses
comunicou num sentido devoluto.
Talvez por isso desaparecem
na paisagem, desenhando
com flores promessas que
cabe ao vivos cumprir
pelos caminhos que os trazem
de novo aos redis sublimes
do destino. Não é assim
também que se escreve?,
de dentro de um cemitério
de sonhos a que só o pavor
dos homens dá o rótulo
entediado da literatura?


em Caminhos de Guia, Lisboa: Black Son Editores, 2002, p. 11.

Em Memória


A vida prega-nos muitas e nefastas surpresas. A morte que quase diria prematura, porque aos 70 anos não se é velho, de mais um amigo, castigado por uma cruel doença, não é coisa boa. Não andei com ele na escola, não fui às sortes com ele, nem dele fui companheiro na empresa onde trabalhou largos anos. Mas fui e sou seu amigo. Habituei-me a gostar dele por várias razões. É público que navegávamos nas mesmas águas políticas e estivemos do mesmo lado em muitas causas. De facto o Manuel foi um Homem de causas. Daquelas que só os grandes Homens são capazes de defender. Primeiro no Sindicato dos Têxteis, quando seria mais cómodo ficar sentado na cadeira de escritório que ocupava, veio para rua com os seus colegas de trabalho reivindicando melhor salário e melhores condições de trabalho. No desporto, na qualidade de treinador, ficará para memória futura a célebre vitória da Equipa dos Amieiros Verdes do campeonato FNAT, ante a congénere de Figueira Castelo Rodrigo. Já antes como hoquista eternizou-se a par de outros nas melhores equipas de hóquei que o saudoso Campo das Festas viu. Impulsionador e dinamizador do CAT (Centro de Alegria no Trabalho). Co-Fundador da Cooperativa de Consumo Oito de Janeiro (Coopoito). Pioneiro da fundação do Partido Socialista em Manteigas. Presidente da Associação Desportiva de Manteigas. Director do Notícias de Manteigas, entre muitos outros cargos e tarefas que ocupou durante a sua vida. Comentávamos amiúde as crónicas de Henrique Monteiro, de Miguel Sousa Tavares e outros que ainda hoje escrevem no jornal Expresso. Com ele aprendi muitas coisas. Homem de grande verticalidade esteve sempre onde quis estar, nunca ninguém o empurrou. Fica-me uma frase que de quando em vez me avivava: "Aos favores dos ricos prefiro o respeito dos pobres". Até Sempre Manuel.


Rui Carvalho

Um poema de Madalena de Castro Campos


Nua e crua

Sabia que olhavam para si
com a atenção suja
que se dedica aos vizinhos da frente.
Ao homem, à mulher, à filha mais velha,
à miséria de uns e à ingenuidade dos outros,
espreitando-lhes a intimidade pela fenda
da janela entreaberta.
Os passos entre a sala e a cozinha, entre o quarto
e a casa de banho, a televisão, o álcool, o tabaco,
o vai e vem inquieto no colchão,
os corpos nus, as discussões,
o sangue e a violência se se tivesse sorte.
Sabia-o, desejava-o,
mostraria o que houvesse para mostrar.
Talvez estivesse a ser usada, mas queria crer
que ela mesma usava aqueles que a liam.

Não conhecia, em literatura,
outro fim, outra estratégia ou outra moral.


retirado do blogue a gun in the garland